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Ainda que seja um passo na direção correta, o pacote
anunciado pelos líderes europeus está longe de garantir o
fim da crise na região. Para Barry Eichengreen, economista
da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e ex-consultor
do Fundo Monetário Internacional (FMI), é insuficiente a
exigência de que os bancos alcancem um nível de 9% de
capital de melhor qualidade até junho de 2012, o que
demandaria uma recapitalização estimada em € 106 bilhões.
Além disso, não há garantias de que o Fundo Europeu de
Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês)
conseguirá ser ampliado até a quantia almejada de € 1
trilhão ou mesmo que a participação de países emergentes
como a China e o Brasil nessa alavancagem se viabilize.
Valor: Como o senhor avalia as medidas anunciadas pelos
líderes europeus, considerando principalmente o acordo pelo
qual bancos privados e seguradoras aceitarão perdas de 50%
com a dívida grega?
Barry Eichengreen: É um passo na direção certa, mas não
suficiente. Nas melhores circunstâncias, a dívida grega
ainda atinge 120% do Produto Interno Bruto (PIB), o que é
muito alto. E mesmo isso assume que a participação dos
investidores privados será de 100%, o que não vai
acontecer.
Valor: E a recapitalização dos bancos europeus atingidos
pela crise, vai funcionar?
Eichengreen: É também um passo na direção correta, mas
também não suficiente. Nove por cento de capital [de melhor
qualidade] é muito baixo. Os testes de estresse que
balizaram a medida incluíram cenários realistas para os
preços de bônus mas não incluíram uma recessão mais
profunda da Europa, que também está ocorrendo. Os bancos
vão elevar seus níveis de capital cortando empréstimos e
investimentos, o que vai afetar o crescimento europeu à
frente.
Valor: Há obstáculos para que a Europa consiga alcançar o
plano de alavancar o Fundo Europeu de Estabilidade
Financeira?
Eichengreen: É improvável que funcione a ideia de usar o
fundo para garantir aos investidores compensação pelos
primeiros 20% de perdas com novos bônus, em caso de uma
reestruturação, porque as perdas quando há reestruturação
de dívida soberana são sempre superiores a 20%. Ter
esperança de que os chineses ou mesmo o Brasil contribuam
com recursos para o veículo de propósito específico junto
com o EFSF é irrealista. Não está claro por que os
governos brasileiro ou chinês deveriam ao menos considerar
isso como um investimento sensível.
Valor: Quão essencial seria essa participação de países
emergentes para o plano?
Eichengreen: Isso ajudaria muito. Alguém tem que comprar
todos os bônus que Itália e Espanha emitirão no próximo
ano. Mas, sem reformas adicionais, não está claro por que
os mercados emergentes deveriam ver tais compras de bônus
como atrativas. Os bancos europeus irão se desfazer de parte
de suas divisões e ativos com o objetivo de elevar os níveis
de capital; então os mercados emergentes são os compradores
lógicos de parte desses negócios.
Valor: As medidas ajudam a resolver os desequilíbrios
fiscais da Europa, que estão na origem dos problemas? Como
garantir disciplina fiscal para evitar novas crises?
Eichengreen: Os governos na
Europa avançaram bem em cortar seus déficits orçamentários.
Vejo os problemas de amanhã relacionados a bancos fracos e
baixo crescimento econômico. Os desequilíbrios fiscais
foram os problemas de ontem.
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