sexta-feira, 28 de outubro de 2011

"Pacote da UE vai na direção certa, mas não basta"

Autor(es): Por Daniela Machado | De São PauloValor Econômico - 28/10/2011


Ainda que seja um passo na direção correta, o pacote anunciado pelos líderes europeus está longe de garantir o fim da crise na região. Para Barry Eichengreen, economista da Universidade da Califórnia, em Berkeley, e ex-consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI), é insuficiente a exigência de que os bancos alcancem um nível de 9% de capital de melhor qualidade até junho de 2012, o que demandaria uma recapitalização estimada em € 106 bilhões. Além disso, não há garantias de que o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EFSF, na sigla em inglês) conseguirá ser ampliado até a quantia almejada de € 1 trilhão ou mesmo que a participação de países emergentes como a China e o Brasil nessa alavancagem se viabilize.
Valor: Como o senhor avalia as medidas anunciadas pelos líderes europeus, considerando principalmente o acordo pelo qual bancos privados e seguradoras aceitarão perdas de 50% com a dívida grega?
Barry Eichengreen: É um passo na direção certa, mas não suficiente. Nas melhores circunstâncias, a dívida grega ainda atinge 120% do Produto Interno Bruto (PIB), o que é muito alto. E mesmo isso assume que a participação dos investidores privados será de 100%, o que não vai acontecer.
Valor: E a recapitalização dos bancos europeus atingidos pela crise, vai funcionar?
Eichengreen: É também um passo na direção correta, mas também não suficiente. Nove por cento de capital [de melhor qualidade] é muito baixo. Os testes de estresse que balizaram a medida incluíram cenários realistas para os preços de bônus mas não incluíram uma recessão mais profunda da Europa, que também está ocorrendo. Os bancos vão elevar seus níveis de capital cortando empréstimos e investimentos, o que vai afetar o crescimento europeu à frente.
Valor: Há obstáculos para que a Europa consiga alcançar o plano de alavancar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira?
Eichengreen: É improvável que funcione a ideia de usar o fundo para garantir aos investidores compensação pelos primeiros 20% de perdas com novos bônus, em caso de uma reestruturação, porque as perdas quando há reestruturação de dívida soberana são sempre superiores a 20%. Ter esperança de que os chineses ou mesmo o Brasil contribuam com recursos para o veículo de propósito específico junto com o EFSF é irrealista. Não está claro por que os governos brasileiro ou chinês deveriam ao menos considerar isso como um investimento sensível.
Valor: Quão essencial seria essa participação de países emergentes para o plano?
Eichengreen: Isso ajudaria muito. Alguém tem que comprar todos os bônus que Itália e Espanha emitirão no próximo ano. Mas, sem reformas adicionais, não está claro por que os mercados emergentes deveriam ver tais compras de bônus como atrativas. Os bancos europeus irão se desfazer de parte de suas divisões e ativos com o objetivo de elevar os níveis de capital; então os mercados emergentes são os compradores lógicos de parte desses negócios.
Valor: As medidas ajudam a resolver os desequilíbrios fiscais da Europa, que estão na origem dos problemas? Como garantir disciplina fiscal para evitar novas crises?
Eichengreen: Os governos na Europa avançaram bem em cortar seus déficits orçamentários. Vejo os problemas de amanhã relacionados a bancos fracos e baixo crescimento econômico. Os desequilíbrios fiscais foram os problemas de ontem.

Nenhum comentário :

Postar um comentário