quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Decisão do BC mantém dólar ligado ao exterior

Autor(es): Fernando Travaglini
Valor Econômico - 20/10/2011
Uma decisão surpreendente do Comitê de Política Monetária (Copom) de ontem poderia novamente representar um gatilho para uma mudança na trajetória do dólar, a exemplo do que ocorreu na reunião anterior, quando o Banco Central (BC) cortou os juros em 0,5 ponto percentual, contrariando o consenso de mercado. Na sequência, a cotação disparou por dez pregões consecutivos e acumulou alta de 18% em setembro.
Como o BC, desta vez, respeitou sua própria comunicação e reduziu os juros no mesmo patamar, a tendência é que o câmbio continue sua toada recente de volatilidade, respondendo quase unicamente ao movimento da moeda americana no exterior.
Em outubro, o preço do dólar no mercado doméstico acumula queda de 5,69%, devolvendo boa parte da valorização que a moeda americana registrou frente ao real em setembro - ontem a moeda fechou em alta de 0,97%, cotada a R$ 1,775, na expectativa pela decisão. O comportamento no mês é bastante similar ao chamado Dollar Index, medida do valor da moeda americana frente a uma cesta de seis divisas internacionais, que também teve queda de 2,1% em outubro.
Nova surpresa do Copom traria outra rodada de alta
O fluxo de entrada e saída de dólar influenciou pouco a cotação no mercado doméstico por dois motivos. O primeiro é que o movimento de divisas neste mês tem sido pequeno. Na última semana, o saldo líquido foi negativo em US$ 55 milhões.
A segunda razão é o fim das flutuações da moeda movidas apenas por lances especulativos, desde a taxação via IOF das variações das posições vendidas na bolsa de futuros e também pelo recolhimento compulsório adotado no segmento à vista para posições vendidas dos bancos acima de US$ 1 bilhão.
As medidas inibiram a tomada de empréstimos no exterior tanto de bancos quanto de investidores externos para aplicação em títulos no Brasil, ganhando com o diferencial de juros (operação conhecida como "carry trade"). Grande parte do movimento de divisas para o país decorria dessas apostas.
Como consequência, as instituições financeiras passaram a operar levemente compradas no mercado à vista. Levando-se em conta a entrada ao longo do mês (US$ 3,403 bilhões) e a inexistência de compras por parte do BC no à vista desde 15 de setembro, todo o fluxo de moedas ficou na mão dos bancos. O estoque físico das instituições financeiras, que encerrou o mês passado em US$ 1,296 bilhão, já deve ter superado os US$ 4 bilhões.
Os bancos se protegem dessa exposição no mercado futuro, vendendo contratos de derivativos na BM&F. Liquidamente, as instituições estão vendidas em US$ 6,2 bilhões - incluindo exposição em contratos de dólar futuro e cupom cambial. Os estrangeiros estão praticamente neutros, com uma posição futura comprada de US$ 195 milhões. As apostas se inverteram.
No jargão do mercado, os pedidos de compra e venda estão "leves", ou seja, há poucos negócios e com volumes pequenos, lembra Italo Abucater dos Santos, gerente de mesa da corretora Icap. No início da semana, o giro caiu à metade dos números históricos. Os negócios se restringem a saídas de dividendos de multinacionais, que já foi mais intenso no mês passado; e a eventuais fechamentos de câmbio por parte dos exportadores. Mas mesmo esses têm operado com certa cautela, devido à volatilidade e à recente apreciação da moeda.
O volume comercial, decorrente das entradas físicas de dólares de exportação e também de adiantamentos de contratos de câmbio (ACC) oferecidos pelos bancos está abaixo da média dos meses anteriores. O fluxo diário caiu para a linha de US$ 250 milhões. O motivo é claro: um dólar no patamar de R$ 1,75, abaixo do nível do mês passado, que bateu R$ 1,95.
O nível atual não chega a ser inflacionário, afirma Marcelo Salomon, co-head de América Latina do Barclays Capital. Em seus modelos, Salomon usa um coeficiente de contaminação do câmbio para a inflação (o chamado pass-through) em torno de 7%. Então, uma depreciação de 10% da moeda teria um impacto da ordem de 7 pontos básicos nos preços.
Mas ele ressalta que, ainda assim, para que ocorresse essa contaminação, o mais preocupante seria uma depreciação permanente na taxa de câmbio, o que não está no radar.
O momento atual é de grande incerteza e o especialista não descarta até mesmo que a moeda rompa o patamar de R$ 2, no caso de uma piora muito acentuada do cenário internacional. Mas para que essa desvalorização se torne permanente é preciso que haja uma mudança nos termos de troca, o que também não parece muito provável.

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Um mudança nos preços relativos do Brasil frente ao exterior depende mais da China, grande importador das commodities nacionais, do que da Europa. E o quadro hoje indica um pouso suave da economia chinesa. "Esperamos algo em torno de 8,5% de crescimento para a China no próximo ano, o que gera uma percepção de que os preços de commodities não vão para um nível muito mais baixo do que já foram." Desde o início de setembro, as commodities caíram cerca de 8% em dólares.
Nesse cenário, a volatilidade na moeda deve permanecer, mas Salomon não acredita em taxas acima de R$ 1,85 de maneira estrutural e permanente - que, de fato, geraria mais inflação. "Por enquanto a volatilidade em si gera um desconforto do lado do formador de preço doméstico, mas não é nada que gere uma aceleração inflacionária que possa ser muito preocupante", diz o economista, que acredita em uma taxa entre R$ 1,75 e R$ 1,8 no fim deste ano, recuando para um patamar mais próximo de R$ 1,7, em 2012.

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