quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Calote e abandono do euro beneficiariam Grécia, diz professor de Harvard

Jeffrey Miron acredita que calote seria boa opção para a Grécia como também para toda a União Europeia


BBC Brasil | 26/10/2011 07:35

Na esperança de receber ajuda da União Europeia, o Parlamento grego adotou novas medidas de austeridade – cortes no serviço público, aumento de impostos e endurecimento nas negociações com os sindicatos. A população reagiu com protestos violentos e greves. Ainda está por se ver como a União Europeia irá responder a isso.

A questão que se coloca para a Grécia é se ela segue nesse caminho – medidas de austeridade que pouco fazem para conter o deficit, seguidas de ajuda europeia suficiente apenas para evitar o default – ou se finalmente admite o óbvio: que deveria dar calote em sua dívida soberana, abandonar o euro e seguir seu próprio rumo.
Se a Grécia der um calote, o país conseguirá alívio imediato do pagamento dos juros sufocantes de sua dívida, ficando com um deficit primário relativamente modesto, que exclui o pagamento das altas taxas de juros com as quais o país se depara agora.
Nesse cenário, a pressão por austeridade diminuiria. Isso permitiria à Grécia escolher políticas que incentivem o crescimento, ao invés daquelas que até encolhem o deficit mas retardam o crescimento por causa das altas taxas (de juros).
Restaurando a competitividade
Ao abandonar o euro e adotar uma moeda com valor apropriado, a Grécia poderá restaurar sua competitividade internacional. Isso significa maior oferta de empregos, tanto de fontes domésticas quanto estrangeiras.
O lado negativo do calote é que a Grécia deve perder, temporariamente, acesso ao mercado internacional de crédito (ainda que se torne um lugar muito mais seguro para investimentos do que é neste momento).

Ficar sem empréstimos internacionais por alguns anos não é um desastre. Isso pode inclusive incentivar cortes no gastos dispendiosos do governo.
O risco maior do calote é que uma vez passada a crise a Grécia diminua a pressão para a resolução dos problemas fundamentais de sua economia: o capitalismo de compadrio, um código fiscal bizantino, o excesso de regulamentação e o inchaço da máquina do governo.
Se a Grécia fracassar nas reformas necessárias, sofrerá em breve uma desaceleração no seu crescimento e uma outra crise, a despeito das medidas que tome agora.
Primeiro passo
O default não é uma panaceia para a Grécia, assim como declarar falência não é garantia de que alguém endividado terá de volta a saúde financeira: depende das ações a serem tomadas após o calote.
Mas o default é um primeiro passo necessário para que a Grécia consiga respirar e estabelecer sua política econômica de forma tranquila e racional. Muitas pessoas, empresas e países já se recuperaram de falências e calotes.
Para os credores europeus, o default grego pode apresentar dois lados negativos: a perda de pagamentos futuros e um risco maior de calote em outros países, como a Itália.
Ainda assim, os riscos têm sido exagerados. É pouco provável que a Grécia honre suas dívidas em um futuro próximo e só o fará se os países ricos lhe derem dinheiro para tanto.
Mensagem correta
Será mais fácil lidar com o risco de calote em outros países se a Europa deixar de injetar dinheiro nos países em situação pior e direcionar sua ajuda aos países que ainda podem ser salvos. O calote grego reduziria as incertezas, o que facilitaria, mais do que impediria, uma solução ordenada de outros países endividados.

Para o contribuinte europeu, o default grego trará outro benefício: irá enviar uma mensagem aos credores que emprestam em meio ao risco, o que os fará serem mais cuidadosos no futuro.
A realidade fundamental é que a Grécia e boa parte da Europa fizeram empréstimos e consumiram muito nas últimas décadas. Alguém tem de pagar.
O defaulf fará com que isso ocorra rapidamente, impondo perdas àqueles que ganharam nos tempos de fartura. Isso é o correto.
*Jeffrey Miron é professor da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, e membro do Instituto Cato. Também é autor do livro Libertarianism, from A to Z.

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