| O Globo - 05/10/2011 |
| França e Bélgica vão socorrer banco exposto à dívida grega, que pode ser a 1ª vítima europeia. Mercados caem |
Os mercados ontem sofreram novas quedas, com temores sobre uma possível quebra do banco franco-belga Dexia somando-se às preocupações sobre a Grécia. Os governos de França e Bélgica anunciaram ontem que vão socorrer o Dexia, que pode se tornar a primeira vítima da crise da dívida na zona do euro. O banco tem uma exposição bilionária a títulos da Grécia: 4,8 bilhões, segundo o jornal francês "Le Monde", uma das maiores da zona do euro. Em sua carteira também há 15 bilhões em bônus da Itália e cerca de 25 bilhões em papéis de governos municipais franceses - o banco se diz líder global nesse tipo de financiamento. No segundo trimestre, depois de proceder à baixa contábil de títulos gregos, o Dexia registrou prejuízo de 4 bilhões.
Com tamanha exposição, surpreendeu o fato de o Dexia ter obtido "nota 10" nos testes feitos pelas autoridades reguladoras europeias em julho. Estas concluíram que o banco não precisava elevar seu capital e que poderia enfrentar um cenário econômico adverso por dois anos. Para o colunista do jornal britânico "Financial Times" James Mackintosh, a situação do Dexia é semelhante à do Bear Stearns, que quebrou em março de 2008.
- Se for necessário, agiremos - disse o ministro de Finanças belga, Didier Reynders.
A Bolsa de Frankfurt caiu 2,98% ontem, enquanto Paris e Londres recuaram 2,61% e 2,59%, respectivamente. O principal índice de Atenas tombou 6,3%, para seu menor nível desde 1993. Pesaram as ações de bancos, puxadas pelo Dexia, que chegou a despencar 38%, fechando depois com queda de 22,46%. O Deutsche Bank caiu 4,3% depois de informar que vai revisar suas projeções de lucro para este ano. Já os franceses BNP Paribas e Société Générale recuaram 5,2% e 4,9%, respectivamente.
Bolsa de SP
recua 0,21%
Em Tóquio, o índice Nikkei caiu 1,05%, para o menor nível dos últimos seis meses. A Coreia do Sul fechou em baixa de 3,59%, e Hong Kong, de 3,40%.
Já Wall Street fechou em alta, depois que o site do jornal britânico "Financial Times" afirmou que a União Europeia (UE) estaria preparando um plano para ajudar os bancos em dificuldade. Com as recentes quedas, as ações estavam baratas, desencadeando um movimento de compra, afirmam fontes do mercado. Esse movimento teve reflexo na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). O Ibovespa, seu índice de referência, chegou a cair 2,68%, mas fechou em baixa de 0,21%, aos 50.686 pontos - ainda a segunda menor pontuação do ano. A redução das perdas foi puxada por Petrobras, cujo papel PN (preferencial, sem voto) avançou 0,76%, a R$18,55.
Em Wall Street, o Dow Jones fechou em alta de 1,44%. Nasdaq e S&P subiram 2,95% e 2,25%, respectivamente. Mais cedo, o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, afirmou que a instituição está pronta para adotar novas medidas de estímulo.
- Bernanke não descarta, por exemplo, injeção de mais liquidez - afirmou o economista-chefe da Legan Asset Management, Fausto Gouveia.
As propostas para o Dexia, costuradas em reunião na noite de segunda-feira, incluiriam, segundo fontes citadas pelo "Times", a venda de suas divisões sadias, como a de administração de fortunas e o banco de varejo turco DenizBank. Seria criado um "banco ruim", com um portfólio de títulos de até 200 bilhões, a ser garantido por França e Bélgica.
A colunista da revista "Fortune" Katie Benner lembrou que o passivo total do Dexia equivale a 1,5 vez o Produto Interno Bruto (PIB) belga. Citando dados da consultoria Knight Capital, ela observou que o passivo do Santander, por exemplo, é de 1,1 vez o PIB espanhol, e o do BNP Paribas equivale a 97% do PIB francês. Se a situação dos bancos se agravar devido à falta de confiança dos mercados, afirmou, os países europeus ficarão com "um passivo terrível".
Sobre os problemas dos bancos europeus, o comissário de Assuntos Econômicos da UE, Olli Rehn, disse ao "Times" que eles precisam reforçar seu capital. Ele ressaltou que, entre as autoridades da UE, há um sentido de urgência em fazer isso.
Fundado em 1996, o Dexia, sediado em Bruxelas, é a terceira maior empresa da Bélgica, atrás da AB InBev e do banco KBC Group. Ele tem 35.200 funcionários e, segundo o ranking da Forbes, é o 19º maior banco da Europa e o 56º maior do mundo por um critério que inclui vendas, lucratividade e valor de mercado.
Na crise de 2008, o Dexia pediu concordata e recebeu 6,4 bilhões dos governos de França, Bélgica e Luxemburgo, que ficaram com fatias do banco. Este ainda obteve US$37 bilhões em empréstimos do Fed.
Os ministros das Finanças da zona do euro informaram ontem que só decidirão sobre a liberação da parcela de 8 bilhões da ajuda à Grécia em novembro. Mas o governo grego assegurou ter recursos para honrar suas obrigações até meados daquele mês.
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