| Autor(es): Angela Bittencourt | De São Paulo |
| Valor Econômico - 31/10/2011 |
O novíssimo acordo para tentar resgatar a zona do euro da crise da dívida atropelou a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), mas não o Banco Central (BC). O acordo e a ata foram divulgados no mesmo dia. À primeira vista, a sombria avaliação do cenário externo feita pelo BC não contemplou o resultado do encontro dos líderes europeus que prevê turbinar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (EEFS, na sigla em inglês) e aplicar desconto de 50% na dívida grega. Na prática, porém, o acordo europeu já está incorporado à visão do BC de que a economia global continuará crescendo devagar e provocando efeitos na atividade doméstica. Sem o acordo, a Europa iria para o abismo. E aí sim a perspectiva do BC, de expansão lenta da economia internacional, seria sepultada pela expectativa de recessão à frente. A Europa no "purgatório" é o cenário básico do BC. Dos Estados Unidos nada indica que vem surpresa. E a evidência mais clara foi dada pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano, que "chutou o balde" por cerca de dois anos. Há quase três meses, o Fed alterou profundamente seu comunicado, após decidir manter a taxa básica, em praticamente zero por "pelo menos até meados de 2013". Portanto, Europa e Estados Unidos ratificam a ideia de que a economia global vai ter pelo menos dois anos difíceis à frente. Ampliar imagem Essa perspectiva, que estava clara para o governo brasileiro em agosto, foi reforçada na ata da última reunião do Copom divulgada na semana passada, em que o BC manteve a indicação de que as condições monetárias terão ajustes moderados. Essa perspectiva, entendida pelo mercado como sinal de corte da taxa Selic em 0,50 ponto percentual por reunião, sugere que o "ritual" da política monetária está sendo cumprido. A defasagem entre medidas adotadas pela autoridade monetária e seus efeitos vem se confirmando. As ações de política monetária tomadas no fim do ano passado e início deste ano - medidas macroprudenciais focadas na desaceleração do crédito ao consumidor e elevação do juro básico - afetaram a atividade no terceiro trimestre e devem atenuar a inflação neste quarto trimestre, quando o mercado de trabalho também dá sinais de arrefecimento. Nos próximos meses, as expectativas do mercado e de formadores de preços devem pesar favoravelmente para os lados do BC, uma vez que a inflação - acumulada em 12 meses e a mensal - "mudará de padrão". O índice em 12 meses cairá e a variação mensal tende a retornar ao padrão histórico, deixando para trás as altas expressivas observadas nos últimos meses de 2010 e início de 2012. O processo é lento e a "limpeza" das estatísticas de inflação deve estar concluída em maio de 2012, com a divulgação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril. Isso não quer dizer que a inflação do primeiro trimestre do ano que vem deixará de ser pressionada. Esse comportamento "já está na conta" da política monetária. A volta da inflação a um "padrão histórico" deverá esgotar efeitos inflacionários decorrentes do segundo programa de alívio monetário (Quantitative Easing - 2) anunciado por Ben Bernanke, presidente do Fed, em agosto do ano passado. Naquele momento, a inflação brasileira em 12 meses estava cravada no centro da meta, em 4,49%. E, três meses depois, essa taxa já superava 5,6%. O QE2 levou a uma corrida para as commodities e a uma dose muito mais elevada de pressões inflacionárias. Isso não quer dizer que não havia pressão de demanda em função da atividade doméstica forte. Certamente havia, mas essa pressão sofreu um "ataque frontal" da política monetária com medidas que levaram ao arrefecimento e ao encarecimento do crédito ao consumidor. Se a inflação acumulada em 12 meses rondar 5,3% entre o primeiro e o segundo trimestre de 2012, como projetam alguns, o IPCA pode cair até o centro da meta, de 4,5%, até o fim do ano. A possibilidade não deve ser descartada. |
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Acordo europeu ratifica cenário-base do Copom
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