segunda-feira, 9 de abril de 2012

Inadimplência de estudantes ameaça recuperação dos EUA

Mais uma bomba chiando na economia americana. E os desdobramentos são sérios...


Autor(es): Por Tom Raum | Associated Press
Valor Econômico - 09/04/2012
 

O programa de crédito estudantil do governo dos EUA parecia ser uma grande ideia em 1965: tome dinheiro emprestado para fazer a faculdade agora e pague depois, quando você tiver um emprego.
Mas muitos participantes do programa agora estão perto de serem expulsos da faculdade, vítimas das dolorosas lições da vida real em matemática e economia.
Acima do US$ 1 trilhão, as dívidas pendentes do crédito estudantil superaram as dívidas dos americanos com o cartão de crédito e com os financiamentos automobilísticos. A explosão dessa dívida ameaça a frágil recuperação da economia, aumenta a carga para os contribuintes e possivelmente prepara o caminho para uma nova crise econômica. Com o mercado de trabalho ainda vacilante, aumentam cada vez mais as dificuldades de pagamento desses empréstimos. Incapazes de conseguir emprego, muitos estudantes voltaram para a escola, aumentando ainda mais suas dívidas.
A dívida média dos estudantes com o crédito estudantil superou recentemente os US$ 25 mil, um crescimento de 25% em dez anos. E essa dívida crescente tem implicações diretas para os contribuintes, uma vez que oito em cada dez desses empréstimos são emitidos ou garantidos pelo governo.
Contribuindo para a escalada do endividamento está o aumento das mensalidades, que sobem num ritmo bem mais acelerado que a inflação. E as matrículas vêm crescendo há anos, uma tendência que ganhou força na última recessão, alimentando ainda mais a tomada de empréstimos.
Mark Zandi, economista-chefe da Moody"s Analytics, afirma que os empréstimos e subsídios concedidos pelo governo não são particularmente bons para os contribuintes, do ponto de vista dos benefícios proporcionados, porque as "universidades e as faculdades simplesmente aumentam suas mensalidades. Isso não melhora a acessibilidade e também não facilita a entrada em uma faculdade".
"É claro que é muito difícil para os jovens que estão passando por isso, porque eles estão numa situação difícil", acrescenta Zandi. "E eles não conseguirão sair dela."
E não são apenas os adultos jovens que estão sobrecarregados. "Os pais e o governo federal arcam com uma parcela substancial da conta de ensino após o nível secundário", diz um novo relatório do Federal Reserve Bank de Nova York. E alguns dos tomadores dos empréstimos estão se aproximando da idade de aposentadoria.
O estudo do Fed constatou que os americanos com 60 anos ou mais ainda devem cerca de US$ 36 bilhões em empréstimos estudantis. No total, quase três em cada dez empréstimos estudantis estão com os pagamentos atrasados em 30 dias ou mais, afirma o estudo.
Uma outra coisa complica ainda mais o quadro: assim como as pensões alimentícias e o imposto de renda, o crédito estudantil normalmente não pode ser descartado ou reduzido em procedimentos falimentares, como acontece com a maioria das outras dívidas atrasadas. Essa restrição foi ampliada em 2005 para incluir também os empréstimos estudantis concedidos por bancos e outras instituições financeiras privadas.
"Essa poderá muito bem ser a próxima bomba para a economia dos EUA", diz William Brewer, presidente da NACBA, associação nacional dos advogados especializados em falência do consumidor. "Como advogados especializados em falências, somos os primeiros a ver as rachaduras nas fundações", afirma Brewer. "Alertamos para os problemas com os financiamentos imobiliários em 2006 e 2007. O setor dizia que tudo estava bem. Ninguém tinha nada sobre controle. Agora, estamos vendo os mesmos sinais de perigo. Estamos vendo grandes calotes nos empréstimos estudantis e pessoas entrando em dificuldades financeiras por causa deles."
Um estudo de seu grupo aponta que deixar de saldar apenas um empréstimo estudantil coloca o tomador na condição de mau pagador. Após nove meses, o tomador está em default. Uma vez que o default ocorre, o volume total do empréstimo vence imediatamente. Para aqueles com crédito estudantil federal, o governo tem amplos poderes de cobrança, que incluem a capacidade de executar os salários de um tomador e confiscar reembolsos tributários e a Previdência Social.
Nigel Gault, principal economista da IHS Global Insight, diz que a crise do crédito estudantil poderá não ser uma bomba para o setor financeiro, como foi o colapso do mercado hipotecário em 2008, mas poderá ser um golpe para os contribuintes e o problemático setor imobiliário residencial.
"Quando os empréstimos estudantis não são pagos, as dívidas são transferidas para o contribuinte", aumentando ainda mais os déficits federais, acrescenta ele. E os tomadores de empréstimos estudantis que estão sobrecarregados podem ser impedidos de se qualificar para financiamentos imobiliários e assim "ficar muito mais tempo na casa dos pais", diz Gault. Os adultos jovens em processo de formação de família historicamente sempre representaram a maior parte dos compradores de moradias de primeira viagem - e a escassez desses adultos jovens poderá prejudicar qualquer recuperação do setor imobiliário.
O presidente Barack Obama pediu ao Congresso a extensão de um corte temporário nas taxas de juros dos empréstimos estudantis. A taxa federal reduzida está agora em 3,4%. Se a redução não for ampliada, o juro subirá para 6,8%.

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