Esse texto é bastante interessante para fazermos uma análise de como funciona o discurso, a demagogia e a defesa pouco fundamentada. Existem diversos fios soltos no texto. É um risco natural que se corre ao tentar defender temas polêmicos. Vamos começar a destruir os argumentos?
1 - Não resta dúvida que é não só interessante, mas primordial para o crescimento de qualquer país, sobretudo numa conjuntura de preços das commodities disparados, que se domine setores considerados chaves, e sem dúvida que o petróleo é um deles. Ocorre que isso não credencia nenhum país a fazer isso "na mão grande". São diversas as questões prejudicadas, quase todas desembocando em insegurança jurídica. E o respeito aos contratos? o que vale então? É, por que o que impede o governo de sob pretextos cada vez menos plausíveis tome medidas parecidas? E agora, quem terá coragem de colocar dinheiro?
2 - Já se foi o tempo em que um país desenvolvido derrubava regimes democráticos, mas parece que chegamos ao tempo em que os governos democráticos derrubam questões consoliodadas na democracia. Salvaguardadas as proporções, qual a diferença entre os ocorridos?
3 - Qual país que conseguirá sobreviver competitivamente sem multinacionais numa economia ultraglobalizada? E, qual desses sobreviventes conseguirá tal façanha sem ser uma EUA da vida, supreprodutor de tecnologia, com altíssima produtividade por fator agregador de valor?
4 - O PIB brasileiro cresceu metade do que o da Argentina cresceu em dado período? Eu gosto muito do Bresser Pereira, mas isso chega a subestimar o leitor! Um pigmeu de 1m crescerá 100% e seu tamanho irá para 2m. Um gigante de 10m crescerá 10% e crescerá o mesmo 1m aumentando em 1/10 do percentual do outro!!!! Estatística simples e básica...
5 - Por fim, de tudo se precisa quando para tudo não se tem escala. Capital é um desses "tudo". As demais questões resvalam no que eu falei da tecnologia, e, longe de ser algo simples, mas é sim possível se trabalhar para transformar ações em reações.
A física ensina...
São Paulo, segunda-feira, 23 de abril de 2012
Luiz Carlos Bresser-Pereira
A Argentina tem razão
Não faz sentido deixar sob controle estrangeiro um setor estratégico para o desenvolvimento do país
A Argentina se colocou novamente sob a mira do Norte, do "bom senso"
que emana de Washington e Nova York, e decidiu retomar o controle do
Estado sobre a YPF, a grande empresa petroleira do país que estava sob o
controle de uma empresa espanhola. O governo espanhol está indignado, a
empresa protesta, ambos juram que tomarão medidas jurídicas para
defender seus interesses. O "Wall Street Journal" afirma que "a decisão
vai prejudicar ainda mais a reputação da Argentina junto aos
investidores internacionais". Mas, pergunto, o desenvolvimento da
Argentina depende dos capitais internacionais, ou são os donos desses
capitais que não se conformam quando um país defende seus interesses? E,
no caso da indústria petroleira, é razoável que o Estado tenha o
controle da principal empresa, ou deve deixar tudo sob o controle de
multinacionais?Em relação à segunda pergunta parece que hoje os países em desenvolvimento têm pouca dúvida.
Quase todos trataram de assumir esse controle; na América Latina, todos, exceto a Argentina.
Não faz sentido deixar sob controle de empresa estrangeira um setor estratégico para o desenvolvimento do país como é o petróleo, especialmente quando essa empresa, em vez de reinvestir seus lucros e aumentar a produção, os remetia para a matriz espanhola.
Além disso, já foi o tempo no qual, quando um país decidia nacionalizar a indústria do petróleo, acontecia o que aconteceu no Irã em 1957. O Reino Unido e a França imediatamente derrubaram o governo democrático que então havia no país e puseram no governo um xá que se pôs imediatamente a serviço das potências imperiais.
Mas o que vai acontecer com a Argentina devido à diminuição dos investimentos das empresas multinacionais? Não é isso um "mal maior"? É isso o que nos dizem todos os dias essas empresas, seus governos, seus economistas e seus jornalistas. Mas um país como a Argentina, que tem doença holandesa moderada (como a brasileira) não precisa, por definição, de capitais estrangeiros, ou seja, não precisa nem deve ter deficit em conta corrente; se tiver deficit é sinal que não neutralizou adequadamente a sobreapreciação crônica da moeda nacional que tem como uma das causas a doença holandesa.
A melhor prova do que estou afirmando é a China, que cresce com enormes superavits em conta corrente. Mas a Argentina é também um bom exemplo. Desde que, em 2002, depreciou o câmbio e reestruturou a dívida externa, teve superavits em conta corrente. E, graças a esses superavits, ou seja, a esse câmbio competitivo, cresceu muito mais que o Brasil. Enquanto, entre 2003 e 2011 o PIB brasileiro cresceu 41%, o PIB argentino cresceu 96%.
Os grandes interessados nos investimentos diretos em países em desenvolvimento são as próprias empresas multinacionais. São elas que capturam os mercados internos desses países sem oferecer em contrapartida seus próprios mercados internos. Para nós, investimentos de empresas multinacionais só interessam quando trazem tecnologia, e a repartem conosco. Não precisamos de seus capitais que, em vez de aumentarem os investimentos totais, apreciam a moeda local e aumentam o consumo. Interessariam se estivessem destinados à exportação, mas, como isso é raro, eles geralmente constituem apenas uma senhoriagem permanente sobre o mercado interno nacional.
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