Foi
divulgado pelo IPEA o texto para discussão nº 1.665, intitulado
"Mensurando o resultado fiscal das operações de empréstimos do Tesouro
ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES): custo
ou ganho líquido esperado para a União?". O instigante estudo
contrapõe-se a diversas manifestações, dentre as quais uma coluna que
aqui escrevi há pouco mais de um ano, contrárias às vultosas
transferências de recursos do Tesouro ao BNDES que vêm sendo feitas
desde 2009, hoje totalizando quase um quarto de trilhão de reais.
O
estudo chega à surpreendente conclusão de que, computados os benefícios
de geração de investimento adicional e renda, no curto e no longo
prazos, os empréstimos do Tesouro em 2009 e 2010 ao BNDES, que somaram
R$ 180 bilhões, geraram ganho fiscal líquido de R$ 100 bilhões, em valor
presente.
Para
chegar ao ganho de R$ 100 bilhões, os autores primeiro estimaram os
custos do subsídio implícito no empréstimo, pois o Tesouro empresta ao
BNDES à TJLP (hoje em 6%), enquanto capta dívida, grosso modo, à taxa
Selic (hoje em 11%). Em seguida, estimam um ganho fiscal de curto prazo,
oriundo do aumento do produto e da renda que teria ocorrido em
decorrência dos empréstimos do BNDES viabilizados com os recursos da
União. Somam ao ganho fiscal um componente de longo prazo, supostamente
oriundo dos efeitos dos investimentos financiados pelo BNDES sobre o
crescimento da economia. O custo fiscal é estimado em R$ 50 bilhões,
enquanto os ganhos em R$ 150 bilhões, daí resultando o ganho líquido de
R$ 100 bilhões.
A
parte inicial do estudo é a estimação dos custos diretos do subsídio
implícito no empréstimo de R$ 180 bilhões. Tal cálculo envolve muitos
detalhes e suposições. Infelizmente, os autores não divulgam apêndices
contendo os dados fundamentais para que se possa avaliar quão razoáveis
são as hipóteses adotadas. Os resultados finais das estimativas indicam
que o custo fiscal direto do empréstimo da União ao BNDES (o subsídio
implícito no empréstimo) seria de 28% dos R$ 180 bilhões, ou R$ 50
bilhões.
Para
avaliar se tais valores são ou não razoáveis, sem dispor dos dados
usados no estudo, pode-se fazer uma conta simples, supondo-se que o
custo da dívida pública se mantivesse igual à taxa Selic do momento em
que o estudo foi feito (7/7/2010), 10,25%, bem como a TJLP também
ficasse constante em 6%. Obviamente, tal cálculo é uma aproximação
grosseira, mas serve bem para avaliar, em princípio, os resultados do
artigo. A tabela mostra qual seria o subsídio (perda) do empréstimo da
União ao BNDES. Dado que os empréstimos são de prazos entre 30 anos e 40
anos, a conclusão é a de que os cálculos parecem subestimar em larga
medida o custo fiscal do empréstimo. Uma análise mais profunda requer
que os autores tornem disponíveis os dados usados.
Mas
a parte mais problemática do artigo está na estimação dos ganhos de
receita fiscal supostamente advindos dos efeitos dos empréstimos do
BNDES sobre o aumento do investimento. Os autores reconhecem que parte
dos investimentos financiados pelo BNDES teria recebido crédito de
outras fontes, caso o subsidiado não tivesse existido. Portanto, é
preciso estimar quanto do investimento financiado pelo BNDES deixaria de
ser realizado, caso os empréstimos subsidiados não tivessem sido
viabilizados pelos recursos do Tesouro. Para isso, contudo, recorrem a
um instrumental econométrico inadequado. As técnicas usadas para estimar
os coeficientes utilizados pelos autores nas simulações não tratam
devidamente os problemas de endogeneidade econométrica, que permeiam
regressões em macroeconomia. Técnicas que levam tais problemas em conta,
desenvolvidas em grande parte pelos ganhadores do Nobel de Economia
deste ano, Sargent e Sims, estão disponíveis há algum tempo e deveriam
ser usadas.
Afinal,
como se explica que, apesar de grande aumento de desembolsos do BNDES, a
participação do investimento no PIB não conseguiu sequer atingir
modestos 20%, no período recente?
Mas
não param aí as falhas do estudo. Uma vez estimados (ainda que
erradamente) os efeitos dos empréstimos do BNDES sobre o quantum do
investimento, os autores prosseguem com análises baseadas em modelos
keynesianos antiquados que supõem implicitamente que a economia não
esteja em pleno emprego (uma boa hipótese em 2009, mas não a partir de
2010). Alguns dos coeficientes também são muito otimistas, contribuindo
para inflar os ganhos fiscais. Na forma atual, as estimativas realizadas
não são válidas e não podem ser usadas como base para prescrições de
política econômica.
O
estudo também passa ao largo de importantes temas que nenhum banco
deveria deixar de considerar, como a quantificação da inadimplência.
Tampouco menciona que parte dos empréstimos do BNDES foi usada para
compra de empresas, aqui e no exterior, sem qualquer ganho fiscal.
Finalmente, o estudo considera como ganho fiscal os dividendos pagos
pelo BNDES ao Tesouro. Tal prática constitui forma espúria de gerar
superávit fiscal com base em aumento da dívida pública, distorcendo as
estatísticas fiscais e prejudicando o bom ordenamento das contas
públicas.
Uma
reflexão final: se os R$ 180 bilhões de empréstimos da União ao BNDES
gerassem um ganho fiscal de R$ 100 bilhões, além de fomentar o
investimento, o emprego e a renda, a prescrição óbvia de política
econômica deveria ser aumentar ao máximo os repasses ao BNDES. O fato de
os autores não se atreverem a colocar no papel tal prescrição é um
forte indício de que talvez não confiem tanto nos resultados. Nisso eles
têm razão. Não deveriam.
Márcio G. P. Garcia - PhD por Stanford e professor do Departamento de Economia da PUC-Rio.
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