| Por dentro do mercado |
| Autor(es): Fernando Travaglini |
| Valor Econômico - 02/12/2011 |
O pacote de medidas do governo para estimular a economia surpreendeu o mercado de juros. O fato de o anúncio ter sido feito no dia seguinte à decisão do Banco Central (BC) de reduzir a Selic em 0,5 ponto percentual, para 11% ao ano, levantou um leque de especulações sobre as relações entre a autoridade monetária e o governo.
Alguns operadores chamaram o conjunto de ações de um "novo Copom", pois desfez parte do trabalho do BC para coordenar as expectativas e trazer para baixo o juro mais longo - que é o que conta de fato para estimular a economia num ciclo de afrouxamento monetário como o atual.
A comunicação entre o BC e o mercado, que já havia sofrido sérios abalos com o corte inesperado de agosto - quando teve início o atual ciclo de afrouxamento monetário -, parecia entrar em sintonia. Mas foi novamente arranhada. A autoridade vinha fazendo um esforço para conquistar a confiança dos agentes em seu plano de voo para a redução da taxa básica, mas agora surgem novamente dúvidas na cabeça dos investidores.
Cresce a incerteza com o acúmulo de estímulos oficiais
O BC trabalhou intensamente nos últimos quarenta e cinco dias. As expressões usadas para sinalizar aos agentes como o BC via a questão internacional e o consequente impacto para o Brasil foram insistentemente repetidas. Além disso, havia forte reação da diretoria colegiada toda vez que o mercado testava a convicção da autoridade monetária na estratégia de reduzir os juros de forma gradual.
A cada pregão em que os contratos de juros futuros mostravam uma ampliação das apostas em um corte mais acentuado, de 0,75 pontos, o presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, ou mesmo um dos diretores da casa, vinha a público para reforçar a visão de que "ajustes moderados" nos juros são condizentes com a convergência da inflação à meta de 4,5% para 2012, dado o quadro de desaceleração global.
A ancoragem das expectativas é uma das principais tarefas do BC em um regime de metas de inflação. E essa ancoragem não está restrita à projeção de inflação e do PIB medida pelo Boletim Focus. Ela abarca também uma coordenação da visão que o próprio mercado tem sobre os próximos passos do BC nas reuniões do Copom.
Se os agentes acreditam que a autoridade monetária está agindo de forma correta em um ciclo de corte de juros, a tendência é que todos esperem uma taxa de juros longa em queda. No jargão do mercado, a "curva de juros" - formada pelos contratos de DI futuro negociados na BM&F para os diversos vencimentos - tem que estar praticamente alinhada. Isso é importante porque os contratos mais longos é que balizam as decisões de investimento e também são usados como referência pelos bancos para definição dos juros do crédito bancário.
Esse é o efeito desejado do ponto de vista de política monetária, pois o crédito é um dos canais de transmissão dos cortes de juros para o cidadão comum. (O Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, fez movimento nessa linha ao anunciar a recompra de títulos mais longos para tentar estimular a atividade).
E de fato, depois do discurso do presidente Tombini, na semana passada, os juros longos recuaram. Os agentes deixaram de lado a euforia que se sucedeu ao discurso do ministro da Fazenda, Guido Mantega, no início da semana passada, e perceberam que o BC está de fato convicto no seu diagnóstico para a cena internacional. No último pregão antes do Copom, os contratos chegaram a mostrar que o juros poderiam chegar a 9% no fim de 2012, tamanha a ancoragem feita pelo BC.
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Mas hoje a curva "empinou" - usando mais uma vez um jargão de mercado. Em outras palavras, os juros longos voltaram a subir, sinalizando uma chance menor de um ciclo longo de corte da taxa básica. O contrato com vencimento em janeiro de 2013 subiu 0,11 ponto percentual logo na abertura dos negócios, para 9,74% ao ano. Isso equivale a uma expectativa de que a Selic possa fechar 2012 no patamar de 9,5% ao ano, alta acentuada para um único dia.
Os quatro cortes consecutivos de 0,5 ponto percentual esperados para 2012 também perderam força e viraram três reduções da taxa básica para as reuniões do Copom de janeiro, março e abril.
A percepção mais repetida ontem nas mesas de bancos e corretoras é de que o país perdeu a oportunidade de realmente reduzir a Selic de forma expressiva e, talvez, permanente. Isso porque pode haver uma confluência de estímulos (salário mínimo, cortes de juros e pacotes de Fazenda) para a atividade em um momento em que a economia já pode estar em recuperação, com efeitos nocivos para a inflação. Muitos operadores acreditam ainda que o governo pode ter se antecipado com estímulos para a atividade antes que a crise internacional de fato chegue ao país.
Fernando Travaglini é repórter
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