sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Crisi senza fine

Brasil S.A
Correio Braziliense - 16/12/2011
 

Nem passou uma semana desde que os chefes de governo da União Europeia anunciaram o pacto de austeridade que poria uma pedra sobre a crise que assombra o euro e a pasmaceira está de volta.
Sem perspectiva de crescimento econômico convincente, com seus bancos travados pela montanha dos títulos de dívida pública dos países da Zona do Euro depreciados e repelidos pelos gestores do mercado financeiro, entregue a lideranças perplexas e temerosas sobre o que fazer, a Europa até que tem resistido com braveza à sua fieira aparentemente sem fim de infortúnios.
À distância a impressão é que os europeus dão piruetas à beira do abismo. Olhando de perto, avista-se uma economia sólida, mas começando a fenecer pelos problemas que se arrastam sem solução.
A produção industrial, por exemplo, está "apenas" 9% abaixo de seu nível pré-crise. Mas o autoengano dos governantes, sobretudo dos alemães, convencidos de que medidas de austeridade antecedem quaisquer ações que impliquem ao Banco Central Europeu (BCE) vir a emitir euros ou títulos comunitários, os tais eurobônus — para desempoçar o mercado de dívidas soberanas e destravar o crédito —, condena a região à ruína. E a união monetária, ao colapso.
A estagnação da indústria europeia, motivo de apreensão até há pouco, já é vista como um bom resultado perto do que está para vir. Em outubro, a indústria recuou 0,1% em relação a setembro e cresceu 1,6% sobre igual mês de 2010. As projeções até dezembro também indicam "contração moderada", segundo o BNP Paribas. Mas para 2012 as expectativas são de recessão. E até de algo pior.
Os sinais estão em toda parte. A França está ameaçada de perder a nota de crédito AAA das agências de risco — uma avaliação hoje que distingue, na Zona do Euro, Alemanha, Finlândia, Holanda e Luxemburgo. Se descer desse pedestal, a França vai pagar mais caro para rolar sua dívida. Os EUA também foram rebaixados para AA, mas, como o mundo corre para o dólar, seu custo para assumir novas dívidas e rolar as antigas não aumentou. Até diminuiu.
A França tem a segunda maior economia do euro depois da Alemanha. A competitividade de suas empresas é inferior à alemã. A banca está superentalada com papéis de dívida do Tesouro francês e de vizinhos insolventes, como Grécia, ou sob o ataque dos mercados, caso de Itália e Espanha. Resultado: o custo do seguro da dívida da França (com base nos CDS, de credit default swap) já é maior do que o do Tesouro do Brasil, com nota de crédito menor (BBB).
O marmanjo abandonado
Depois de todo o carnaval da premiê da Alemanha, Angela Merkel, radiante com o resultado da cúpula da União Europeia, no último fim de semana, não era para seu colega francês Nicolas Sarkozy aparecer na foto com cara de marmanjo abandonado. E talvez, no íntimo, invejando a independência do inglês David Cameron, que chutou o pau da barraca e negou apoio às medidas draconianas impostas por Merkel para ajudar os países europeus endividados.
Parte da UE, mas não da Zona do Euro, a Inglaterra se isolou, mas sua solidão pode ser breve. Os governos da República Tcheca e da Hungria, que também estão fora da união monetária, ameaçam recuar do apoio ao acordo de austeridade exigido por Merkel.
Cortando-se com gilete
A adesão a tal pacto implica ceder à burocracia de Bruxelas a soberania fiscal, já que o veto sobre o orçamento fiscal sairá dos parlamentos regionais para a caneta do comissariado europeu. E isso em troca de solução para as dividas nacionais que só virá depois que cada governo rendido implante cortes severos de gastos, aumente impostos, demita funcionários, privatize bancos e empresas, reduza aposentadorias. Corte-se com gilete, enfim.
Gerenciamento sombrio
Foi o que o ex-primeiro-ministro da Itália Silvio Berlusconi não quis ou não conseguiu fazer e renunciou. A Itália, terceira maior economia do euro, tem dívida irresgatável, apesar de sua economia, sobretudo a indústria, ser competitiva. Mas com o euro valorizado o que lhe resta? Deflacionar salários. Seu sucessor, um tecnocrata escolhido por Bruxelas, diz que faz, o parlamento italiano está acuado, e as ruas começam a sair de controle.
O que cobrar da sociedade, se, segundo o ministro da Indústria, Corrado Passera, a Itália está em recessão como sequela da crise "criada por um gerenciamento sombrio e inadequado"? Se for como quer a Alemanha, a recessão só vai reduzir a capacidade de cada país pagar o que deve. Vai piorar muito antes de melhorar.
Um perfil de suicidas
Em depoimento ao parlamento alemão na quarta-feira, Merkel, com sua característica frieza, disse que levará anos para a crise da Europa ser resolvida, enquanto os mercados esperam resposta para hoje ou amanhã. Nem a Alemanha pode esperar. No modelo europeu da integração inacabada, o BCE centraliza as políticas, mas cabe aos bancos centrais regionais implantá-las, assim como fechar as contas uns dos outros. O BC deficitário é suprido pelo que tiver superavit — há muito tempo predicado quase único do Bundesbank, o BC da Alemanha. Que também se exauriu, com seus ativos caindo de 268 bilhões de euros em dezembro de 2007 para 21 bilhões de euros em outubro. A crise está revelando um perfil suicida dos europeus.

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