| Autor(es): Cristiane Alkmin J. Schmidt |
| O Estado de S. Paulo - 07/12/2011 |
PROFESSORA DA FGV, FOI SECRETÁRIA ADJUNTA DA SEAE/MF
Como há uma relação de causa-efeito entre economia e política, a resposta não é trivial. Em termos epistemológicos, a Economia Política estuda como os contornos políticos influenciam a conduta dos agentes econômicos e vice-versa: como as reações destes modificam o entorno político. Montchrétien e Adam Smith utilizaram essa terminologia para explicar as relações no mercado de trabalho como centrais na geração de riqueza e competitividade das nações. É possível, assim, tirar daí reflexões para a crise na zona do euro (ZE).
A começar por notar que não há consenso sobre se a crise é econômica ou política. Questionadas pela revista Época (7/11), Eliana Cardoso diz que o problema é político e que este determina o econômico e Benedicta Marzinotto, do centro de estudos Bruegel, afirma que era econômico e passou a ser político.
Pode-se argumentar que o problema econômico causou o político. Não só porque o estopim em 2008 começou no mercado financeiro, com freio no crédito, mas também porque hoje se vê um EUA endividado, com baixo crescimento e desemprego alto e persistente. Não importa, pois, qual partido está no poder. Ele deverá perder as próximas eleições. Na Europa é até pior, pois ela ainda conta com crise soberana, desalinhamentos competitivos e nas regras fiscais e alta exposição bancária. Nesse imbróglio, Sócrates, Papandreou e Berlusconi renunciaram em Portugal, Grécia e Itália; Cowen e Zapatero perderam eleições para a oposição na Irlanda e na Espanha; e Sarkozy deve perder na França.
Também é possível dizer que o problema político gerou o econômico. Afinal, a crise de 2008 foi consequência de ações políticas (desregulamentação bancária) desde Reagan, que subestimou os riscos dos derivativos. O entorno desse cenário político incentivou os agentes a reagirem de certa maneira, culminando no estouro da bolha. Se tivesse havido vontade política, medidas poderiam ter sido tomadas com resultados econômicos distintos. E na crise da ZE, a instabilidade política tem gerado incertezas econômicas. Fala-se muito em dívidas e déficits, pois os limites do Tratado de Maastricht não foram cumpridos. Pouco se fala, porém, sobre o mercado de trabalho. Um Finlandês viveria na Grécia em 1999? E hoje?
A migração no mercado de trabalho desde a formação da ZE não ocorreu satisfatoriamente, gerando descompasso na competitividade entre seus membros. Comparando a variação dos custos unitários do trabalhador, vê-se que foi grande o ganho de competitividade da Alemanha desde 2000, tanto que ela é a maior superavitária em transações correntes. Como o câmbio é fixo, o ajuste nas contas externas dos demais passa pela redução de preços e salários dos países periféricos vis-à-vis os centrais. Mas, com uma só moeda, o processo é lento em razão da rigidez desses preços. Indicadores de produção e desemprego mostram isso. Fossem flexíveis, as variáveis reais não seriam afetadas.
Merkel, Weidmann e Draghi dizem que só os políticos resolvem a crise e rejeitavam veementemente usar o Banco Central Europeu como emprestador. Mas, em 30/11, houve atuação dos seis maiores BCs cortando juros e, em 1/12, anúncio de um novo tratado. O cenário está tão confuso que a The Economist (26/11) sugere que o euro pode acabar. Alinhamentos políticos e fiscais e atuação monetária são elementos importantes na solução de curto prazo.
Porém, se a ZE sobreviver, seguirá com problemas estruturais de longo prazo. Além da criação de uma instituição fiscal que harmonize regras fiscais e previdenciárias, o mercado de trabalho precisa ser mais discutido. Se em 1999 a mobilidade de trabalho tivesse sido alta, provavelmente agora não haveria problemas relativos à competitividade. Mas hoje seria essa total mobilidade desejada? Na tentativa de evitar a destruição do projeto de 60 anos da moeda única, pois, seria importante resgatar as leituras de outrora, uma vez que num sistema democrático a simbiose entre economia e política é um fato e a dinâmica no mercado de trabalho, uma variável relevante como parte da solução de longo prazo da crise na ZE.
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