| Autor(es): Bráulio Borges |
| Valor Econômico - 29/12/2011 |
O juro natural é definido como aquela taxa que deixa a inflação estável no horizonte de tempo de atuação da política monetária. Assim, seu conhecimento tem considerável utilidade prática para os bancos centrais, que a utilizam como um importante balizador de suas decisões. Não obstante, a taxa de juros natural é uma variável não observável - ou seja, precisa ser estimada, tal como o PIB potencial e a taxa de desemprego natural. Seria recomendável que o governo anunciasse um "plano de voo" objetivo para a evolução da política fiscal/parafiscal Em meados de 2010, o Banco Central explicitou em um Relatório Trimestral de Inflação o diagnóstico de que poderia estar em curso uma queda estrutural do juro natural - reacendendo a discussão sobre esse tema em vários fóruns (inclusive neste jornal). Ainda no final do ano passado, o BC realizou uma pesquisa inédita junto a 60 instituições financeiras e consultorias econômicas perguntando, dentre outras coisas, qual seria a taxa de juros natural brasileira. A maior parte desses analistas apontou valores no intervalo de 6,5% a 7%. É notório o fato de que essas estimativas aproximam-se bastante da taxa de juros real efetiva observada na média de 2006 a 2010 (7,2%). Nesse ínterim, a inflação oscilou ao redor do centro da meta - o IPCA médio nesse período foi de 4,7%, contra um centro da meta de 4,5%. A lógica por trás das estimativas do juro natural feitas pelo mercado - a mera extrapolação desse fato estilizado recente - seria inquestionável caso a taxa de juros fixada pelo Copom fosse o único condicionante da demanda agregada brasileira. Contudo, nesse mesmo período houve crescimento expressivo, bastante acima da variação do PIB, dos gastos fiscais e parafiscais/crédito direcionado - condicionantes da demanda agregada que são pouco influenciados pela política monetária. De fato, essas variáveis assumem expressiva relevância na determinação da demanda agregada brasileira: o crédito direcionado (desembolsos do BNDES e empréstimos habitacionais e rurais) corresponde a quase 35% do crédito total e os gastos da União, estados e municípios representam pouco mais de 36% do PIB. Com efeito, parece razoável inferir que a autoridade monetária foi impelida a praticar juros reais superiores ao nível neutro em 2006-2010 para manter a inflação estável em torno do centro da meta. Ou seja, a falta de coordenação entre políticas monetária, fiscal e parafiscal jogou todo o fardo do controle inflacionário sobre o BC. Os estudos já feitos buscando estimar o juro natural para o Brasil se limitaram a replicar metodologias utilizadas para outras economias, sobretudo desenvolvidas. Ao incorporarmos explicitamente essas especificidades da economia brasileira em um modelo econométrico, a taxa de juros natural estimada situa-se no intervalo de 4,3% a 5,4%, com o ponto médio em 4,8%. Esse resultado, abaixo de parcela considerável das estimativas anteriores, reforça a avaliação de que essas idiossincrasias tupiniquins interferem na demanda agregada e, consequentemente, na dinâmica inflacionária. Desse modo, a falta de coordenação entre as políticas econômicas requer uma condução mais austera da política monetária - cujo objetivo explícito, pelo menos desde 1999, é o de manter a inflação evoluindo de acordo com a trajetória de metas. Caso a política econômica nos próximos anos também se caracterize por essa ausência de coordenação, a intenção declarada pelo governo atual de levar a taxa de juros real para algo entre 2% e 3% até 2014, respeitando o arcabouço de metas de inflação, revela-se inconsistente. Buscar essa redução sem a reformulação do modus operandi da política de despesas e dos mecanismos de crédito direcionado significa que uma realidade de juros reais civilizados pode nos levar, traiçoeiramente, a uma inflação ascendente ao longo do tempo. Um simples exercício feito com base no modelo que utilizamos para estimar o juro natural assinala a importância da coordenação entre política monetária e fiscal/parafiscal para acelerar a convergência do juro brasileiro em direção aos padrões internacionais. Mantidos os gastos do governo e o saldo de operações de crédito direcionado estáveis, descontada a inflação, a taxa de juros natural brasileira poderia recuar em cerca de 1 ponto percentual a 1,5 ponto percentual. Desse modo, a redução do juro real ambicionada pelo governo parece ser factível, porém exige esforços paralelos no âmbito fiscal e parafiscal. Ações nesse sentido aconteceram neste ano de 2011 de forma inédita, mas sem garantias de continuidade: às vésperas do início de 2012 não se sabe com clareza se as políticas fiscal e parafiscal serão expansionistas, contracionistas ou neutras. E o cenário para 2013 e 2014 é ainda mais nebuloso. Essa incerteza acaba dando respaldo aos mais céticos quanto à trajetória prospectiva dos juros e mesmo da inflação brasileira, além de dar margem para interpretações de ingerência política nas decisões sobre a Selic. Nesse quadro, seria altamente recomendável, do ponto de vista da melhoria da credibilidade da política econômica, que o governo anunciasse um "plano de voo" objetivo e estruturado para a evolução da política fiscal/parafiscal em 2012-2014. Bráulio Borges é economista-chefe da LCA Consultores Lorreine Messias é economista da E2 - Economia.Estratégia |
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Juro de 2% a 3%: um cenário factível?
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