segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Quem sai primeiro?


Brasil S.A
Autor(es): Márcio Pacelli
Correio Braziliense - 21/11/2011
 
Em Londres, o desmoronamento da Zona do Euro virou assunto para apostadores. Grécia, Portugal e Irlanda lideram os palpites
 A cada dia, aumenta o número de economistas que dão como inevitável o desmantelamento da Zona do Euro. Para eles, a demolição é apenas questão de tempo. A julgar pelas declarações de Nouriel Roubini, o Doutor Apocalipse, que previu a crise de 2008 antes de todos, Grécia e Portugal serão os primeiros a abandonar o barco. Mas, diante de complicações recentes e divergências contundentes entre os principais líderes europeus, não será absurdo admitir a hipótese de ver a Alemanha surpreender e dar adeus ao euro.
Se a crise da dívida europeia, agora intensificada pelos riscos sobre países centrais, como Itália e França, beirar o incontornável, com exigência de juros cada vez maiores por parte dos compradores de títulos públicos, não há por que esperar uma reação pacífica ou mesmo suicida dos alemães. Caso o desabamento em espiral, como o efeito de um ciclone, mostre-se irreversível, a ponto de sugar as economias combalidas do bloco, o governo de Angela Merkel terá apoio popular e sustentação política para pular fora antes da catástrofe.
A ideia, aliás, veio a público há menos de um ano, quando a petulância do então primeiro-ministro grego, George Papandreou, deu nos nervos de Merkel. A governante chegou a considerar o rompimento ao ser criticada durante as discussões que fixavam contrapartidas do socorro a Atenas. "Se esse é o tipo de clube em que o euro se transformou, talvez a Alemanha deva sair", teria admitido ela, na ocasião, segundo o jornal The Guardian. Naturalmente, a publicação britânica foi prontamente desmentida por Berlim.
Bolsa de apostas
As divergências em torno de Merkel só aumentam na Europa. Há duas semanas, o bate-boca foi com o parceiro mais próximo nesses dias de agonia, o presidente francês, François Sarkozy, que defendeu uma ação direta do Banco Central Europeu (BCE) como tábua de salvação para os países superendividados do bloco. Num arroubo de lucidez, a chanceler alemã insistiu que não há sentido em aceitar medidas paliativas — como o desvio das funções da instituição — e adiar reformas econômicas capazes, essas sim, de reverter problemas estruturais da Zona do Euro.
Na sexta-feira, a discordância veio do primeiro-ministro David Cameron, do Reino Unido, país que está fora da união monetária. A contenda, no caso, foi em torno da criação da taxa sobre transações bancárias na Europa, uma espécie de Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) internacional. A ideia, que criaria uma reserva de recursos para proteção do continente, mas, sobretudo, um seguro contra a quebra de bancos, causa urticárias em Londres, maior centro financeiro da região. O temor é pelo sumiço dos investidores.
Aliás, em Londres tudo gira em torno de dinheiro. Não por acaso, o desmoronamento da Zona do Euro também virou assunto para apostadores. Grécia, Portugal e Irlanda são, naturalmente, os países que lideram os palpites. Mas Itália e Espanha, que vêm pagando prêmios cada vez mais altos para rolar suas dívidas públicas, tornaram-se fortes candidatas. Ciosos de sua moeda, os ingleses foram duramente criticados, à época da criação do euro, por não aderirem à união monetária. Todavia, a iniciativa na qual um cidadão pode ganhar ou perder um punhado de libras, apostando contra o futuro do bloco, soa como brincadeira de mau gosto.
Duas velocidades
Na economia real, não há o que festejar com o desabamento da Zona do Euro. Diante da recessão que está por vir, pode-se dizer que, até agora, o mundo sentiu apenas os primeiros abalos. Por conta deles, Grécia, Itália, Portugal e Irlanda já trocaram chefes de governo e, aos trancos e barrancos, vêm cortando gorduras para reduzir gastos. Mas o terremoto se fará presente caso os planos de ajustes não produzam os efeitos que se esperam deles. Daí a insistência de Merkel por rever inclusive as premissas que criaram a união monetária.
Em sua cruzada para salvar o euro — e a própria pele — do abismo que se avizinha, a líder alemã chegou a classificar o momento atual como o pior desde a 2ª Guerra Mundial, um estigma na história do país. Ironicamente, foi a Alemanha destruída de seis décadas atrás que se reergueu e deu o suporte necessário à criação do euro. Sem o marco, divisa mais forte das 17 que deram lugar à moeda comum, a união monetária teria ficado apenas no plano das ideias. Agora, após anos de irresponsabilidade fiscal de outros integrantes do bloco, a conta chegou e os alemães são convidados a pagá-la.
Sarkozy já deu pistas do que seria a nova Zona do Euro. Admitiu que o plano discutido com Merkel prevê duas velocidades para os países do bloco, ou seja: um grupo de economias em ritmo veloz, formado pelo time avaliado com a nota triplo "A" das agências de risco; e o segundo pelotão, integrado pelas nações em dificuldades. O fato é que, antes mesmo das primeiras baixas, quem dá adeus à Europa, numa partida sem volta, é a rede de benefícios sociais montada há décadas no continente, e que lhe deu reconhecimento mundial. Agora, ninguém mais vai se aposentar cedo, o seguro-desemprego anda escasso e os impostos só sobem. Para o europeu comum, fazer parte de um clube assim já não faz muito sentido.
Márcio Pacelli é subeditor de economia

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