| Autor(es): Por João Villaverde | De Brasília |
| Valor Econômico - 10/11/2011 |
Os mercados estão insanos. Os indicadores econômicos e os sinais políticos do governo italiano são praticamente os mesmos daqueles verificados desde o fim de 2008, quando estourou a crise econômica mundial - a dívida pública do país ronda o patamar de 120% do Produto Interno Bruto (PIB) há quase dois anos e Sílvio Berlusconi é o premiê há três anos, além de orbitar o poder no país desde 1994. Mas, devido ao pânico instaurado no mercado financeiro, os italianos dificilmente escaparão de ser a "nova Grécia". Essa é a avaliação do economista francês Robert Boyer, diretor de pesquisa do Centre National de la Recherche Scientifique e da École des Hautes Etudes em Sciences Sociales, na França. Especialista em regulação financeira, Boyer entende que o pânico nos mercados é desatado pela sensação de que o líder político do país que é agora "a bola da vez da crise" será incapaz de conduzir o aperto fiscal exigido pelo fundo de estabilização europeia. Foi o estresse entre os investidores que desencadeou a mudança nos governos de Portugal, Irlanda e Grécia, além do anúncio, em outubro, de que os socialistas deixariam o poder na Espanha e o realizado anteontem por Berlusconi. "Isso pode chegar na França, caso haja ceticismo das agências de classificação de risco quanto à capacidade do governo implementar as medidas de aperto anunciadas na semana passada", preconiza Boyer. "Se a nota francesa for rebaixada, algo que avalio ter grande possibilidade de ocorrer em 2012, [Nicolas] Sarkozy [o atual primeiro-ministro] não se reelegerá". "Se a nota francesa for rebaixada, o que tem grande possibilidade de ocorrer em 2012, Sarkozy não se reelegerá" O especialista francês elogiou a regulação praticada pelo Banco Central brasileiro sobre o sistema financeiro, e defendeu a política econômica adotada pelo Ministério da Fazenda desde o segundo governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e mantida sob Dilma Rousseff. "Mas o governo brasileiro deve não só taxar a entrada de capital especulativo, como proibir qualquer inovação no mercado de securitização de dívida e recebíveis", afirmou Boyer, para quem as inovações praticadas pelo sistema financeiro nos Estados Unidos e na União Europeia no período pré-2008 foram a "pedra fundamental" da crise mundial. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor por Boyer, que veio ao Brasil para participar de seminário realizado em Brasília pelo Grupo Caixa Seguros. Valor: O governo brasileiro mantém, desde outubro de 2009, o IOF sobre a entrada de capital externo, à exceção daquele que se refere a investimento, e instituiu a taxação sobre operações de derivativos cambiais. Isso pode, na eventualidade de um cenário externo mais perigoso, afugentar o investidor? Robert Boyer: Veja o caso da Suíça. Há dois meses, os suíços, que há séculos fazem uma política econômica conservadora, deixaram o câmbio flutuante, de forma a terminar com a especulação que o capital externo estava fazendo com sua moeda. Essa foi uma decisão muito mais ousada que qualquer coisa que o governo brasileiro fez ou mesmo fará. E o que aconteceu? Nada. O país ficou mais seguro, e utilizou muito bem um expediente que deveria ser adotado por todos, que é o definir como você quer receber o capital externo. O dinheiro deve ter liberdade total para sair, mas entra apenas sob as condições determinadas por cada país. Valor: A crítica à regulação exacerbada é que ela, no limite, pode inibir inovações tecnológicas e financeiras, certo? Boyer: Mas taxar a entrada de capitais de curto prazo, quando o país, como o Brasil, dispõe de uma ampla agenda de projetos de infraestrutura, não inibe inovação alguma. Aliás, o governo deveria, inclusive, proibir qualquer inovação no mercado de securitização de dívidas e recebíveis. O ato de "inovar" nesse mercado, que significa o repasse à outros investidores do risco de inadimplência entre o credor e o devedor, foi a pedra fundamental da grave crise de 2008. Valor: Segundo o Banco Central, receberemos recordes US$ 60 bilhões como investimento estrangeiro direto neste ano. Boyer: É um sinal de que há amplo espaço para os investimentos. Mas é bom lembrar que nada é para sempre. O Brasil precisa criar instrumentos para depender menos do capital externo. Valor: Como o sr. vê o recente estresse do mercado quanto à economia italiana? Boyer: O mercado financeiro mundial está insano. O que mudou na Itália? A dívida pública, como proporção do PIB, está no mesmo patamar há dois anos, e Berlusconi é o premiê desde 2008. O baixo crescimento econômico também não é novidade. Há sim um pânico dos investidores quanto aos líderes europeus, tidos como incapazes de implementar as reformas necessárias. O mercado forçou a mudança no poder de Portugal, Grécia, Espanha e agora também a Itália. Os italianos dificilmente escaparão de ser a nova Grécia. Esse pânico pode chegar na França. Valor: Como? Boyer: Caso haja ceticismo das agências de classificação de risco quanto a capacidade do governo implementar as medidas de aperto anunciadas na semana passada. Se a nota francesa for rebaixada, algo que avalio ter grande possibilidade de ocorrer em 2012, [Nicolas] Sarkozy [o atual presidente] não se reelegerá. Valor: Como o sr. acha que vai se desenrolar a crise no local de origem, os Estados Unidos? Boyer: Não sei e ninguém pode saber. O presidente [Barack] Obama está isolado, e o [movimento de extrema direita] Tea Party pode acabar elegendo o presidente em 2012, o que seria drástico para a economia mundial. Se tivéssemos um modelo de capitalismo mais regulado, seria possível prever, com muita propriedade, os acontecimentos do curto e médio prazo, por meio de um modelo econométrico muito bem construído. Mas, como a desregulação é exagerada, é praticamente impossível prever o desenrolar desta crise mundial. |
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
"Pânico do mercado deverá fazer da Itália a nova Grécia"
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