| Autor(es): Por Sebastian Mallaby | Financial Times |
| Valor Econômico - 25/11/2011 |
Nos últimos 18 meses, a Alemanha tentou todos os truques para limitar a sua contribuição em socorros a países do euro. Isso levou os países falidos a uma austeridade autodestrutiva. A Alemanha convocou o Fundo Monetário Internacional. A Alemanha tentou passar o chapéu na China. A Alemanha descobriu um gosto improvável e fútil no sentido de alavancar o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF). Mas agora todos esses truques se esgotaram e o continente aproxima-se do abismo - tendo a própria Alemanha sofrido a humilhação de um malsucedido leilão de títulos. Chegou o momento de a Alemanha decidir de uma vez por todas: quanto pagará para salvar a Europa?
Os alemães poderão chegar à resposta sensata somente se descartarem o mito, amplamente aceito no norte da Europa, de que os países periféricos do sul são beneficiários indignos de uma caridosa união de transferência. Podemos detectar a origem desse mito: os gregos se aposentam na casa dos cinquenta anos, mentiram sobre o seu déficit orçamentário e é irritante quando exigem um socorro após outro. Mas apesar das fotografias aéreas de piscinas não tributadas em Atenas, o ressentimento do norte em relação aos sulistas preguiçosos é exagerado. A verdade é que a Alemanha colhe inúmeros benefícios da união monetária. Deveria pagar mais para salvá-la.
Partamos de um simples fato sobre as taxas de câmbio. Desde 2009, estáveis economias abertas - do Brasil à Suíça - registraram aquecidos afluxos de dinheiro e sofreram uma pressão ascendente sobre suas moedas. Se a Alemanha não tivesse adotado o euro, sua moeda teria se comportado como o franco suíço, estragando a recente festa em seu coração industrial. Entre agosto de 2009 e maio de 2011, as exportações alemãs deram um salto de 18%. Uma estimativa razoável sugere que eles teriam subido apenas 10% se a Alemanha tivesse permanecido fora do euro.
Inversamente, se a periferia europeia não tivesse aderido ao euro, suas moedas teriam caído no mesmo período. Em vez de serem impactadas por um choque financeiro e uma crise de competitividade, teriam sofrido o primeiro sem a segunda. Evidentemente, a união monetária que torna o ajuste na periferia tão excruciante é a mesma união monetária que proporcionou à Alemanha seu boom exportador. Em vez de condenar sulistas preguiçosos, os alemães devem compartilhar os benefícios.
Por meio do canal monetário, a Alemanha também beneficiou-se mais do que reconhece. Durante a primeira década do euro, as taxas de juro em toda a zona do euro caíram, aproximando-se da taxa alemã, e os países meridionais com baixa taxa de poupança pareceram beneficiados por um subsídio da nota de crédito dos nortistas, que muito poupavam. Mas, longe de ser uma benção para os periféricos, a política monetária centralizada revelou-se adequada para o cerne da UE, porém excessivamente frouxa para as economias mais atrasadas da zona do euro tendentes à inflação. Por uma ironia que os alemães, que odeiam inflação, têm dificuldade em ver, a Irlanda e a Espanha sofreram estouros de bolhas em seus mercados imobiliários e em seus setores bancários pelo menos em parte porque a política monetária foi excessivamente alemã. Em vez de tratar os perdedores com escárnio, a Alemanha deveria indenizá-los.
Depois que a crise do euro começou, a dinâmica monetária foi revertida - mas continuou favorecendo os alemães. Como emissor dos ativos de reserva remanescentes na Europa, a Alemanha beneficiou-se de uma enxurrada de afluxos de capital provenientes da periferia, baixando o rendimento dos títulos de sua dívida pública com maturação em 10 anos para cerca de 2% (ignoremos o leilão desta semana).
Compare a sorte da Alemanha com os problemas da periferia. Antes do euro, as famílias portuguesas que planejavam se aposentar em escudos poupavam em escudos. Isso criou uma base de clientes semicativa para os títulos denominados em escudos - para que o governo de Portugal pudesse se autofinanciar. Mas a chegada do euro comprometeu essa preferência doméstica dos portugueses e eliminou de Portugal seu próprio banco central. Os poupadores portugueses que querem ativos em euros podem agora comprá-los na Alemanha; e sem um emprestador de última instância para apoiá-lo, o governo de Portugal precisa remunerar os investidores amedrontados pelos riscos que assumem.
Ou seja, os alemães têm razão: a união monetária europeia envolve, efetivamente, transferências. Mas não é verdade que essas transferências fluem apenas num só sentido. A Alemanha paga com socorros e transferências intrarregionais, mas também recebe benefícios via canais comerciais e monetários. Se ao menos a Alemanha pudesse aceitar essa verdade, poderia ainda mobilizar a vontade para socorrer o euro - e salvar uma geração de esforços pela construção de uma Europa integrada. (Tradução de Sergio Blum)
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