| Autor(es): Manoj Pradhan |
| Valor Econômico - 25/10/2012 |
Primeiro, o dilema que a China enfrentará: essa orientação ao consumo2 poderia aumentar o custo do capital para investimentos, em um momento no qual o investimento é necessário para a urbanização e para lidar com as mudanças demográficas. Por quê? Um consumo maior significa que as famílias terão de economizar menos. A poupança das famílias chinesas, no entanto, representa uma fonte cativa e barata de capital, graças aos juros dos bancos comerciais, que em termos reais giram em torno a zero. Para encontrar um melhor retorno sobre o investimento, o capital terá de mover-se para o interior da China, que é a chave para a próxima fase de crescimento da China. Caso uma parte da mão de obra que migrou para a China litorânea siga o capital e volte ao interior, o resultado vai ser uma pressão prolongada de alta nos salários no litoral - boas notícias para o consumo, más notícias para o investimento. À medida que os fatores demográficos mudarem, vai ser necessário um maior investimento em tecnologias que economizem mão de obra, para produzir mais com menos funcionários e para sustentar um número crescente de dependentes. Segundo, o dilema que os países emergentes enfrentarão: provavelmente há uma relação de troca entre incentivar o crescimento no curto prazo e buscar as reformas que incentivarão o crescimento de longo prazo. A maioria das economias de países emergentes3 tem espaço para afrouxamento monetário e a maioria também tem espaço de manobra fiscal. Valer-se de um afrouxamento generalizado, no entanto, tende a (temporariamente) revigorar o modelo atual. Em 2009, a China elevou os investimentos, a Índia elevou seu consumo e os exportadores de commodities tornaram-se ainda mais dependentes das commodities - o que deixou essas economias em desequilíbrio ainda maior. Os países emergentes precisam resistir a esse impulso. Terceiro, o dilema que o modelo de crescimento dos países emergentes vai enfrentar: que não haja disponibilidade de demanda externa, com a ressalva de que adotar uma estratégia voltada à demanda doméstica também traz riscos, como explicado em artigo de Dani Rodrik, de Harvard. O setor industrial em uma economia de mercado emergente, mostra o professor Rodrik, é justamente o setor que pode convergir em direção a seu homólogo4 em economias avançadas. Se o crescimento baseado em exportações é coisa do passado, então, é improvável que o setor industrial cresça rapidamente, o que deixa em risco a equiparação com as economias avançadas. Os países emergentes, então, se veem presos entre a incerteza em torno da demanda externa e entre o risco à convergência do setor industrial, decorrente do crescimento baseado na demanda doméstica. Há alguma solução para restaurar o crescimento? Pode haver. Para levá-la adiante, no entanto, as autoridades dos países emergentes precisarão derrubar alguns de seus tabus. Primeiro, a política industrial, não a política macroeconômica, precisa ser a pedra angular da iniciativa de reequilíbrio. A macroeconômica pode beneficiar todos, mas não pode redirecionar recursos dentro de uma economia com a eficiência que a política industrial teria. A limitação é que a política industrial depende da capacidade das autoridades para escolher os investimentos "certos". Segundo, as oportunidades geradas pela política industrial deveriam ser financiadas, em sua forma ideal, via déficits em conta corrente. Captar dinheiro das economias avançadas para financiar investimentos com os altos retornos que só as economias de países emergentes podem oferecer é algo natural; exportar o excesso de poupança para as economias avançadas em troca de retornos parcos, não. Por fim, esses déficits em conta corrente (se tolerados pelos motivos corretos) não deveriam ser vistos como fator de agravamento da estabilidade macroeconômica. O que parece ligar a vulnerabilidade macroeconômica aos atuais déficits em conta corrente é apenas a experiência passada. Essa é uma visão muito simplista, em um mundo no qual as economias com déficits em conta corrente possuem reservas internacionais substanciais, enquanto economias superavitárias possuem necessidades de captação externa considerável. A macroestabilidade5 decorre do crescimento sustentado - nem mais nem menos. Nem tudo, no entanto, é pessimista. Há garantia de certo otimismo moderado. As reformas da Índia e México, algumas reformas no Brasil e a rejeição de um orçamento insuficientemente reformista do presidente Vladimir Putin na Rússia são bons sinais, embora a aplicação de fato dessas mudanças continue sendo uma preocupação-chave. Além disso, o que o modelo do professor Rodrik não captura é motor de longo prazo de equiparação com as economias avançadas - as melhorias socioeconômicas. Por essa métrica, ainda há espaço de sobra para convergência, mas os países emergentes vão precisar, primeiramente, destrinchar os empecilhos a seu crescimento, para que esses programas de melhoria socioeconômica possam ser financiados. Tudo isso, entretanto, será de pouco alívio até que o mistério em torno da transição política e econômica da China seja esclarecido. (Tradução de Sabino Ahumada). Manoj Pradhan é economista especializado em países emergentes no Morgan Stanley. |
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
Emergentes precisam derrubar tabus
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