quarta-feira, 9 de maio de 2012

Impasse político eleva risco de Grécia deixar o euro e dar calote



Autor(es): Por Assis Moreira | De Genebra
Valor Econômico - 09/05/2012
 

A persistente instabilidade política na Grécia aumenta os riscos de o país abandonar a zona do euro até o fim do ano, concordam analistas que, desta vez, minimizam o impacto sobre a moeda comum europeia.
A expectativa é que os gregos voltem às urnas para nova eleição no mês que vem, depois do fiasco dos dois grandes partidos tradicionais, o Nova Democracia (de centro-direita) e o Pasok (socialista), em chegar a um acordo ou obter apoio da esquerda para formar um governo amplo, dito de "salvação nacional".
Mas há um claro risco de que nova eleição não tenha, de novo, um vencedor claro. E, mesmo se os partidos favoráveis aos acordos de austeridade com a troika - Fundo Monetário Internacional (FMI), União Europeia (UE) e Banco Central Europeu (BCE) - conseguirem uma pequena maioria, a piora nas condições econômicas da Grécia manterão enormes incertezas sobre o futuro do pacote de socorro, cuja continuidade implica a implementação de 77 medidas de austeridade pelo país.
Assim, a UE poderá se defrontar proximamente com o cenário que alguns temem: aceitar atenuar as condições impostas aos gregos para ajustar a sua economia ou deixar de apoiar o país, o que significaria na prática excluí-lo da zona do euro.
O presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, foi enfático ontem, em Bruxelas, ao afirmar que um país como a Grécia deve aplicar o plano de rigor "ou é a falência".
Também, pela primeira vez, um dos membros da diretoria do Banco Central Europeu (BCE), Joerg Assmussen, levantou sem rodeios a possibilidade de saída da Grécia da zona do euro, algo que até agora o banco se recusava a reconhecer publicamente.
"A Grécia precisa estar atenta ao fato de que não há alternativa ao programa de reformas se quiser continuar como membro da zona do euro", afirmou ele, em entrevista ao jornal econômico alemão "Handelsblatt".
Em meio ao impasse político atual, dois meses depois de ter forçado a maior reestruturação de títulos de dívida soberana, conseguindo abatimento de € 107 bilhões, a Grécia enfrenta de novo o risco de ser o primeiro país desenvolvido a dar calote.
Na semana que vem, os ministros da zona do euro devem se reunir para decidir sobre a liberação de nova parcela da ajuda para a Grécia. Um dia depois, dia 15, o país precisa pagar € 450 milhões para investidores privados que não aceitaram a redução do valor de seus títulos gregos. No dia 18, o país terá que devolver € 3,4 bilhões ao Banco Central Europeu (BCE), que comprou títulos da dívida grega no auge da crise. E, no fim de junho, Atenas terá de novo que pagar ao BCE mais € 3,3 bilhões.
Nesse cenário, "as chances de outro calote grego em semanas ou meses aumentaram", diz Ben May, economista-chefe para a Europa da consultoria Capital Economics. "Isso não resultaria automaticamente em saída da zona do euro nem da UE. Mas a Grécia estaria sob enorme pressão de autoridades e talvez, mais importante, dos mercados, para abandonar a moeda comum."
Enquanto cresce o descontentamento popular e a perda de confiança nos líderes políticos gregos, expressos na eleição de domingo passado, o atual chefe do governo, o tecnocrata Lucas Papademos, terá que lutar muito para convencer os europeus a liberar a nova parcela de ajuda.
Para o Rabobank, da Holanda, não há como os contribuintes dos principais países da Europa aceitarem manter transferência de recursos para a Grécia, para deixar o governo de Atenas retornar ao "business as usual".
Segundo o banco holandês, depois que o BCE injetou mais de € 1 trilhão de liquidez na zona do euro, o mercado está sinalizando que uma saída para a Grécia "não mais representa uma ameaça sistêmica tão grande para a Europa".
Para o economista Tobias Blattner, da consultoria Daiwa Capital, em Londres, o risco de a Grécia sair da zona do euro até o fim do ano é ilustrado na pressão para começar a implementar, a partir de junho, mais medidas de austeridade equivalentes a € 12 bilhões ou 5,5% do PIB, para 2013 e 2014.
Se uma coalizão pró-planos de socorro ganhar o poder em junho e as autoridades da zona do euro fizerem tudo o que podem para manter a Grécia na união monetária, Atenas poderá lutar ainda dentro da zona do euro por algum tempo, diz Ben May. "Mas, pelo momento, pensamos que a Grécia deixará o euro até o fim de 2012 ou mesmo antes."
O mercado de dívida soberana para a Grécia fechou em maio de 2010. A partir daí, o país ficou cada vez mais dependente dos empréstimos do FMI e da UE. A dívida pública aumentou para € 360 bilhões ao final de 2011, dos quais € 73 bilhões são com FMI e UE.
Cerca de 75% dos gregos dizem querer continuar na zona do euro.

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