| Autor(es): Denis Lerrer Rosenfield |
| O Globo - 13/08/2012 |
Um crime literalmente horroroso ocorreu na cidade de Porto Alegre, nestes últimos dias, envolvendo uma família de classe média alta. Um bioquímico, supostamente por motivos de ciúme e traição de sua mulher, a matou a facadas. Aliás, segundo a perícia, algumas dessas facadas, antes das mortais, eram para fazê-la sofrer, prenúncio vívido do que lhe aconteceria a seguir. Não satisfeito, o assassino foi para o quarto do filho do casal de 5 anos e o esfaqueou, matando-o em sua própria cama. O motivo novamente alegado era o de que a criança não poderia viver sem a mãe. Friso a expressão "motivo alegado" com o intuito de mostrar a futilidade da razão apresentada e o seu caráter particularmente cruel. Note-se que não estamos diante de um problema "social", na medida em que o casal vivia em um bairro de classe média alta e desfrutava de uma condição boa de vida. A mulher era enfermeira e o marido funcionário público e sócio de um laboratório. Ocorre que esse crime foi simultâneo ao crime em que um americano assassinou várias pessoas em uma sessão cinematográfica, no estado do Colorado. Logo depois, aliás, outro episódio semelhante teve lugar no assassinato de vários membros da seita sikh, de origem indiana. O assassinato, a facadas, de uma mulher e de seu filho de 5 anos mereceu apenas algumas páginas regionais na seção policial, enquanto os dois episódios americanos ocuparam manchetes de jornais nacionais e dos meios de comunicação em geral. Tornou-se uma grande notícia, exigindo comentários de "especialistas". Ora, boa parte dos ditos especialistas convocados se apressou a declarar que o problema residia na ausência de controle de armas nos Estados Unidos. Se seguissem o exemplo do Brasil, tudo estaria resolvido! O politicamente correto brasileiro, seguindo o seu congênere americano, dito "progressista", logo se erigiu em juiz dos crimes americanos, advogando pelo desarmamento naquele país e, indiretamente, no nosso. É como se as leis americanas devessem aprender com as nossas! Esse tipo de formador de opinião imediatamente alardeou que o Brasil conhece a solução, podendo ensiná-la a esses americanos ignorantes. Considerando que a Justiça exige critérios equitativos, poder-se-ia perguntar por que o crime brasileiro não deu lugar a toda uma campanha midiática pelo desarmamento de facas! Nem foco midiático houve! Se os culpados são os instrumentos e não as pessoas que os utilizam, seria razoável estabelecer a mesma exigência. A culpa residiria na faca, tal como ela existiria no revólver. Seguindo o mesmo raciocínio, as mortes de trânsito, tendo como instrumentos os automóveis, deveriam também dar lugar a uma campanha pelo "desarmamento" dos automóveis, visando à sua proibição. Não seriam os motoristas que matariam, porém os veículos. Pense-se, por exemplo, no motorista que atropelou dezenas de ciclistas em uma manifestação em Porto Alegre, em fevereiro de 2011. As imagens do fato, divulgadas nacionalmente, demonstram que apenas a sorte explica a inexistência de mortes no ocorrido. No início deste mês, um motorista sem habilitação atropelou mais de 20 torcedores do Corinthians que comemoravam a conquista da Taça Libertadores da América. Analogamente, a responsabilidade dos atos das pessoas que fumam não seria dos fumantes, mas das indústrias do setor, pois, da mesma maneira, conta o instrumento e não aquele que exerce essa escolha. Todos esses casos mostram a desresponsabilização do agente, como se fosse um menor incapaz que não sabe o que está fazendo. Por via de consequência, ele deveria ser tutelado pelo Estado, que saberia aquilo que é melhor para ele. Ora se esse raciocínio fosse válido, deveríamos, então, passar para o controle das facas, mortal instrumento nas mãos de um assassino. Diga-se de passagem que, segundo os especialistas, um assassino que usa de faca é muito mais cruel do que aquele que se utiliza de um revólver. Vejamos alguns dados, extraídos do "Small Arms Survey", um projeto de pesquisa do Graduate Institute of International and Development Studies, instituição localizada em Genebra. Ele é uma referência importante em termos de informação pública sobre armas de pequeno porte e violência armada, e serve como fonte de dados para governos, pesquisadores e ativistas. Os dados sobre homicídios são do United Nations Office on Drugs and Crime, das Nações Unidas. Existem 270 milhões de armas de fogo em mão civis nos Estados Unidos. Com esse número astronômico, o país é o primeiro colocado em armas de fogo em todo o mundo. Porém, no último ano, houve 9.146 homicídios com armas de fogo naquele país, isto é, 2,97 por 100 mil habitantes. A Suíça ocupa a terceira colocação em posse de armas por civis. Tem 3,4 milhões de armas. Em cada 100 pessoas, 45,7 possuem armas, praticamente a metade da população. No último ano, houve 57 homicídios com armas de fogo naquele país. Isto é, 0,77 por 100 mil habitantes. Logo, não há nenhuma relação entre o número de armas de fogo em posse dos civis e homicídios. O Brasil possui 14 milhões de armas de fogo em mãos civis. Em cada 100 pessoas, apenas 8 possuem armas. No entanto, o alto índice de homicídios por armas de fogo, 34.678 no último ano, 18,1 por 100 mil habitantes, desqualifica a tese segundo a qual "poucas armas, menos homicídios". Do mesmo modo, os índices dos Estados Unidos refutam a tese de país belicista e violento. Se alguma inferência pode ser feita é a seguinte: quanto mais armas, menos homicídios. No Brasil, as armas estão com os bandidos - sem qualquer controle do Estado! O grande problema dessa primazia do politicamente correto no Brasil é o tipo de recorte de notícias e comentaristas, em uma espécie de intoxicação midiática. Um crime como o da faca, cruel entre todos, mostra o quanto algo aparentemente anódino e reservado a páginas policiais pode ganhar significação visto na perspectiva de elucidação do controle e tutela do cidadão |
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
O revólver e a faca
Assinar:
Postar comentários
(
Atom
)
Nenhum comentário :
Postar um comentário