O crescimento brasileiro vem
decepcionando em 2012. Há um ano, a mediana das projeções de
crescimento do PIB para este ano, coletadas pelo Banco Central em seu
relatório Focus, estava em 4,1%. Hoje, essa mesma mediana está em
1,85%. Isso depois do crescimento de 2011 também ter decepcionado,
ficando em 2,7%.
Alguns analistas sugerem ser essa uma
evidência de que a capacidade de crescimento do Brasil está
comprometida. Depois de um período particularmente favorável entre 2004
e 2010, estaríamos voltando para nossa antiga sina de crescer perto de
2% ao ano.
A conclusão parece precipitada. Há uma
parte cíclica pesando sobre o crescimento econômico que, há razões para
acreditar, será gradualmente superada. No entanto, também é verdade
que alguns fatores que permitiram um crescimento mais acelerado no
passado recente não estão mais presentes. Mesmo quando os obstáculos de
curto prazo forem superados, o crescimento talvez não retorne aos
níveis pré-2011.
Há uma parte cíclica pesando sobre o crescimento. Espera-se uma retomada no 2º semestre e em 2013
O componente cíclico está relacionado a
excessos de 2010, quando o país andou rápido demais. O consumo das
famílias cresceu muito, especialmente de bens duráveis. As empresas
aceleraram o investimento e a produção, motivadas pela crença de que a
economia brasileira manteria o crescimento forte indefinidamente.
No entanto, com a desaceleração da
demanda observada a partir de 2011, vendas ficaram abaixo do projetado,
estoques se acumularam em muitos setores. Algumas famílias se
perceberam endividadas, acentuando a redução da demanda.
A piora do cenário de crescimento
global também tem sua influência. China e Estados Unidos perderam
vigor, e o risco de uma ruptura na Europa não é desprezível. A
incerteza externa também vem pesando sobre a confiança do empresário
brasileiro, ajudando a retardar a retomada do investimento.
Diante deste cenário, o governo passou a
estimular a demanda com cortes de juros e impostos, e aumento de
gastos. As medidas expansionistas, mantidas por tempo suficientemente
prolongado, devem fazer com que a economia supere os obstáculos de
curto prazo. O país ainda conta com um mercado consumidor amplo, com
demanda reprimida em muitos segmentos. O avanço da classe média
continua, como revelaram os últimos dados do censo do IBGE. Há gargalos
de infraestrutura que geram oportunidades de investimentos,
relacionados ou não aos grandes eventos esportivos que vamos sediar. O
setor imobiliário ainda tem espaço para expansão, haja vista que o
volume de crédito residencial é baixo, mesmo com a arrancada dos
últimos anos.
Ao longo dos próximos trimestres a
demanda interna seguirá melhorando e atingindo mais setores da
economia. O nível de estoques na indústria estará mais ajustado, a
produção deve retomar. As projeções do Itaú apontam para uma aceleração
do PIB de 1,9% em 2012 para 4,5% em 2013, com o crescimento do quarto
trimestre de 2012 já perto de 5%, em termos anualizados.
Passado o período de baixa, no entanto,
o novo ritmo de cruzeiro da economia brasileira nos próximos anos deve
ser menor do que na década passada. Entre 2004 e 2010, o Brasil
cresceu 4,5% ao ano, mas durante este período ocorreram alguns
fenômenos que não devem se repetir.
Primeiro, o nível de crédito como
proporção do PIB subiu de 25% para perto de 50%. Não é um movimento que
preocupa, dado que 50% ainda é um nível confortável. Mas é prudente
que o avanço seja mais moderado daqui para frente.
Segundo, a taxa de desemprego caiu para
5,5%, nível próximo do chamado pleno emprego. Não há mais a ociosidade
no mercado de trabalho de anos passados. Para continuar a crescer no
mesmo ritmo anterior, é preciso agora acelerar a produtividade da
mão-de-obra, que é relativamente baixa no Brasil. Investimentos em
automação e em qualificação de pessoal vêm sendo feitos, mas ainda são
localizados.
Terceiro, ao longo da década passada o
mundo cresceu muito acima do normal, em parte porque Europa e EUA
viviam a bolha do endividamento, em parte porque a China estava em
processo acelerado de urbanização. Com a crise financeira e o avanço da
urbanização chinesa, o crescimento destas regiões tende a ser mais
baixo, reduzindo a demanda pelas exportações brasileiras.
Finalmente, como resultado do mundo
crescendo menos, os preços das commodities que exportamos devem se
estabilizar. Ficará mais difícil manter o ritmo de crescimento das
importações - que dobraram em termos reais desde 2004, fruto da forte
expansão da demanda interna - sem gerar desequilíbrios externos.
Em suma, o crescimento muito baixo do
primeiro semestre no Brasil tem um componente cíclico importante, que
vai sendo superado conforme os exageros do passado recente são
digeridos. É legítimo esperar uma retomada da economia no segundo
semestre, e em 2013. Mas isso não significa que voltaremos ao
crescimento acelerado da década passada. Para isso, precisamos de
reformas adicionais, que aumentem a capacidade de investimento e gerem
ganhos de produtividade ao país.
Caio Megale, mestre em economia pela PUC-RJ, é economista do Itau-Unibanco
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