segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Forbes ironiza preços da Chrysler no Brasil e quem busca status em carro caro


 13/08/2012 - 00h03 /Do UOL, em São Paulo (SP)

  • Jeep Grand Cherokee: nos EUA é carro de classe média baixa; no Brasil, só o bacana tem... Jeep Grand Cherokee: nos EUA é carro de classe média baixa; no Brasil, só o bacana tem...




Um jornalista da versão online da revista americana Forbes, especializada em finanças e muito conhecida por compilar listas das maiores fortunas do mundo, escreveu um artigo em que ataca o preço excessivo cobrado no Brasil por modelos da Chrysler. Especificamente, citou o Jeep Grand Cherokee, já à venda no país, e antecipou crítica ao futuro preço do Dodge Durango, que só deve ser mostrado no Salão do Automóvel de São Paulo, em outubro.

Jeep e Dodge são marcas do grupo Chrysler, hoje controlado pela Fiat.

"Alguém pode imaginar que pagar US$ 80 mil por um Jeep Grand Cherokee significa que ele vem equipado com grades folheadas a ouro e asas. Mas no Brasil esse é o preço de um básico".

É assim, em tradução literal, que começa o texto de Kenneth Rapoza, jornalista que cobre os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) para a Forbes. O título original é "Brazil's ridiculous $80,000 Jeep Grand Cherokee", que, vertido ao pé da letra, fica "O Jeep Grand Cherokee brasileiro de ridículos US$ 80 mil". O termo ridiculous, quando usado em frases construídas assim, serve para sublinhar o exagero daquilo a que se refere (no caso, o preço), em vez de simplesmente significar "ridículo". Mas a crítica continua duríssima.

Rapoza centra sua argumentação nos modelos da Chrysler e não comenta, por exemplo, que mesmo os carros fabricados no Brasil também são relativamente caros. O jornalista aponta os culpados de sempre pelos preços inflados (ele prevê o Durango a R$ 190 mil): impostos sobre importados e outras taxas aplicáveis a produtos industriais. "Com os R$ 179 mil que paga por um único Grand Cherokee, um brasileiro poderia comprar três, se vivesse em Miami", escreve Rapoza. O valor é o da versão Laredo; a Limited custa R$ 204,9 mil.

Mas a questão principal, para ele, é mostrar que o brasileiro que gasta esse dinheiro todo num modelo Jeep não deveria acreditar que está comprando um produto que lhe dê status. "Sorry, Brazukas" (sic), escreve Rapoza. "Não há status em comprar Toyota Corolla, Honda Civic, Jeep Cherokee ou Dodge Durango; não se deixe enganar pelo preço cobrado".

O jornalista acrescenta que "um professor de escola primária pública no Bronx [bairro de Nova York]" pode comprar um Grand Cherokee pouco rodado, enquanto no Brasil trata-se de carro de bacana. A citação de Civic e Corolla é importante porque, nos Estados Unidos, estes são considerados carros baratos, de entrada -- mas no Brasil, mesmo fabricados localmente, custam mais de R$ 60 mil (cerca de US$ 30 mil).

SE É CARO, É MELHOR
O que Kenneth Rapoza diz, no fundo, é que o consumidor brasileiro confunde preço alto com qualidade, e/ou atribui status a qualquer coisa que seja cara. O jornalista reconhece que vê esse "valor de imagem" em carros de Audi, BMW, Mercedes-Benz e grifes esportivas italianas, mas jamais em modelos do grupo Chrysler.

Essa tese é explicada exaustivamente por Rapoza nas respostas aos comentários de leitores, que, até a publicação desta reportagem, eram 88 -- muitos deles postados por pessoas usando nomes brasileiros.

Ali, o próprio Rapoza arrisca algumas palavras em português. Em seu perfil no site da Forbes, o jornalista relata que cobriu o país "pré-Lula e pós-Lula", sendo que nos últimos cinco anos trabalhou como correspondente aqui para o Wall Street Journal e a agência Dow Jones. Agora está baseado em Nova York.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

As razões do crescimento baixo

Autor(es): Caio Megale Valor Econômico - 09/08/2012  

O crescimento brasileiro vem decepcionando em 2012. Há um ano, a mediana das projeções de crescimento do PIB para este ano, coletadas pelo Banco Central em seu relatório Focus, estava em 4,1%. Hoje, essa mesma mediana está em 1,85%. Isso depois do crescimento de 2011 também ter decepcionado, ficando em 2,7%.
Alguns analistas sugerem ser essa uma evidência de que a capacidade de crescimento do Brasil está comprometida. Depois de um período particularmente favorável entre 2004 e 2010, estaríamos voltando para nossa antiga sina de crescer perto de 2% ao ano.
A conclusão parece precipitada. Há uma parte cíclica pesando sobre o crescimento econômico que, há razões para acreditar, será gradualmente superada. No entanto, também é verdade que alguns fatores que permitiram um crescimento mais acelerado no passado recente não estão mais presentes. Mesmo quando os obstáculos de curto prazo forem superados, o crescimento talvez não retorne aos níveis pré-2011.
Há uma parte cíclica pesando sobre o crescimento. Espera-se uma retomada no 2º semestre e em 2013
O componente cíclico está relacionado a excessos de 2010, quando o país andou rápido demais. O consumo das famílias cresceu muito, especialmente de bens duráveis. As empresas aceleraram o investimento e a produção, motivadas pela crença de que a economia brasileira manteria o crescimento forte indefinidamente.
No entanto, com a desaceleração da demanda observada a partir de 2011, vendas ficaram abaixo do projetado, estoques se acumularam em muitos setores. Algumas famílias se perceberam endividadas, acentuando a redução da demanda.
A piora do cenário de crescimento global também tem sua influência. China e Estados Unidos perderam vigor, e o risco de uma ruptura na Europa não é desprezível. A incerteza externa também vem pesando sobre a confiança do empresário brasileiro, ajudando a retardar a retomada do investimento.
Diante deste cenário, o governo passou a estimular a demanda com cortes de juros e impostos, e aumento de gastos. As medidas expansionistas, mantidas por tempo suficientemente prolongado, devem fazer com que a economia supere os obstáculos de curto prazo. O país ainda conta com um mercado consumidor amplo, com demanda reprimida em muitos segmentos. O avanço da classe média continua, como revelaram os últimos dados do censo do IBGE. Há gargalos de infraestrutura que geram oportunidades de investimentos, relacionados ou não aos grandes eventos esportivos que vamos sediar. O setor imobiliário ainda tem espaço para expansão, haja vista que o volume de crédito residencial é baixo, mesmo com a arrancada dos últimos anos.
Ao longo dos próximos trimestres a demanda interna seguirá melhorando e atingindo mais setores da economia. O nível de estoques na indústria estará mais ajustado, a produção deve retomar. As projeções do Itaú apontam para uma aceleração do PIB de 1,9% em 2012 para 4,5% em 2013, com o crescimento do quarto trimestre de 2012 já perto de 5%, em termos anualizados.
Passado o período de baixa, no entanto, o novo ritmo de cruzeiro da economia brasileira nos próximos anos deve ser menor do que na década passada. Entre 2004 e 2010, o Brasil cresceu 4,5% ao ano, mas durante este período ocorreram alguns fenômenos que não devem se repetir.
Primeiro, o nível de crédito como proporção do PIB subiu de 25% para perto de 50%. Não é um movimento que preocupa, dado que 50% ainda é um nível confortável. Mas é prudente que o avanço seja mais moderado daqui para frente.
Segundo, a taxa de desemprego caiu para 5,5%, nível próximo do chamado pleno emprego. Não há mais a ociosidade no mercado de trabalho de anos passados. Para continuar a crescer no mesmo ritmo anterior, é preciso agora acelerar a produtividade da mão-de-obra, que é relativamente baixa no Brasil. Investimentos em automação e em qualificação de pessoal vêm sendo feitos, mas ainda são localizados.
Terceiro, ao longo da década passada o mundo cresceu muito acima do normal, em parte porque Europa e EUA viviam a bolha do endividamento, em parte porque a China estava em processo acelerado de urbanização. Com a crise financeira e o avanço da urbanização chinesa, o crescimento destas regiões tende a ser mais baixo, reduzindo a demanda pelas exportações brasileiras.
Finalmente, como resultado do mundo crescendo menos, os preços das commodities que exportamos devem se estabilizar. Ficará mais difícil manter o ritmo de crescimento das importações - que dobraram em termos reais desde 2004, fruto da forte expansão da demanda interna - sem gerar desequilíbrios externos.
Em suma, o crescimento muito baixo do primeiro semestre no Brasil tem um componente cíclico importante, que vai sendo superado conforme os exageros do passado recente são digeridos. É legítimo esperar uma retomada da economia no segundo semestre, e em 2013. Mas isso não significa que voltaremos ao crescimento acelerado da década passada. Para isso, precisamos de reformas adicionais, que aumentem a capacidade de investimento e gerem ganhos de produtividade ao país.
Caio Megale, mestre em economia pela PUC-RJ, é economista do Itau-Unibanco

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Depois da euforia (IV): educação

Autor(es): Fabio Giambiagi
Valor Econômico - 08/08/2012
Este é o quarto artigo acerca do meu livro com Armando Castelar ("Além da euforia", Ed. Campus) referente aos problemas da nossa realidade e que serão um obstáculo para a continuidade do crescimento. Depois de um primeiro texto geral, os artigos posteriores trataram da nossa baixa produtividade e da poupança doméstica e hoje iremos abordar o tema da educação. O desenvolvimento sustentável, para além da "etapa fácil" da ocupação de capacidade ociosa e da redução da taxa de desemprego, se constrói sobre alicerces que, no Brasil, deixam a desejar - realidade essa que, se não for modificada, irá conspirar contra nosso êxito no longo prazo.
O capítulo sobre educação foi escrito por Marcio Gold Firmo, cujas informações acerca do tema são aqui sintetizadas. A tabela é um bom indicador para medir nosso atraso relativo. É verdade que entre 2000 e 2010 o número de anos médios de escolaridade da População Economicamente Ativa (PEA) no Brasil aumentou 1,1 ano. Ocorre que:
i) na década anterior, tinha aumentado 1,9 anos;
ii) na primeira década deste século, a escolaridade média se elevou também 1,1 ano nos países selecionados da periferia europeia e nos "tigres" asiáticos e em 0,9 anos nos maiores países da América Latina exceto Brasil; e
iii) no conjunto de países da tabela, em 2010 o Brasil fica muito atrás em qualquer comparação feita.
Estamos mal na foto - e o filme não chega a ser animador. O Brasil evoluiu, mas o resto do mundo também. Consequentemente, nosso atraso relativo permanece. Uma realidade similar se observa em diversos indicadores. Na nota de matemática do Programme for International Student Assessment (Pisa), hoje o melhor "termômetro" comparativo da qualidade da educação em diversos países, mesmo considerando o avanço recente, ficamos atrás não apenas dos países desenvolvidos, mas também de países como Argentina, México, Chile, Uruguai e também atrás de Rússia, Sérvia, Turquia e Cazaquistão. No mesmo PISA, em 2009, o percentual de alunos com desempenho abaixo do adequado em matemática foi de 8% na Coreia do Sul, 22% na média dos países da OCDE, 23% nos EUA, 30% na Grécia, 42% na Turquia e constrangedores 69% no Brasil. Nos exames do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB), o percentual de alunos com desempenho em Matemática considerado adequado à sua série já é baixo no 5º ano do Ensino Fundamental (apenas 33%) e cai ainda mais, para apenas 15%, no 9º ano e para 11% no 3º ano do Ensino Médio.
Alguém poderia alegar que o problema é de escassez de verbas. Essa é uma questão controversa, mas objetivamente: a) o gasto em educação no Brasil passou de 3,9% para 5% do PIB entre os anos de 2000 e 2010; e b) neste último ano, o gasto em educação no Brasil como fração do PIB, pelos dados da OCDE, era maior do que nos EUA e do que a média da OCDE, além de ser também superior ao de Polônia, Holanda, Canadá, Espanha, Coréia do Sul, Alemanha, Austrália, Chile e Japão.
País prioriza o ensino direcionado à formação do cidadão, ao invés de ensinar matemática e português
Parte do nosso atraso vem de longa data e resulta da opção que as elites dirigentes fizeram há décadas ao adotar um modelo fortemente concentrador de renda e com escassas preocupações com a melhora de oportunidades para os filhos das famílias mais humildes, através da priorização da educação. A Coreia do Sul fez exatamente o contrário a partir dos anos 50, com resultados espetaculares.
Parte do problema, porém, deriva de escolhas recentes, como aquelas associadas a certo tipo de ensino voltado para a formação do cidadão, em oposição à priorização do aprendizado de matemática e português. Sem uma base forte nessas disciplinas, é impossível esperar que o aluno tenha um bom desempenho nas demais. Cabe destacar, como um bom sinal, o empenho do setor privado e da academia em favor do avanço da avaliação da eficácia de diferentes tipos de intervenções educacionais, a despeito da resistência de parte do setor de educação pública. É imperativo que os governos assumam o papel de multiplicadores das experiências inovadoras de sucesso.
Na educação, o Brasil tem hoje uma atitude oposta à que assume no futebol, no qual o segundo lugar é visto como uma derrota. Comparativamente, a autocongratulação em relação aos resultados educacionais de nossas crianças e jovens é de uma complacência inadmissível. Aspirar a um crescimento sustentável de 5% ao ano, desse jeito, é apenas um sonho.
Fabio Giambiagi, economista, coorganizador do livro "Economia Brasileira Contemporânea: 1945/2010" (Editora Campus), escreve mensalmente às quartas-feiras

Uma moeda, muitos mercados

Autor(es): Hans-Helmut Kotz
Valor Econômico - 07/08/2012
A união monetária europeia está "cantando os pneus" rumo ao abismo, involuntária, mas, ao que tudo indica, inexoravelmente. A Grécia muito provavelmente não satisfará os critérios para que receba mais ajuda financeira de seus parceiros na zona do euro e do Fundo Monetário Internacional. Os europeus, então, precisarão decidir se deixam a Grécia partir. A opção de saída não melhorará as chances de a Grécia realizar um ajuste bem sucedido, e ocorreria a um preço exorbitante para a zona euro.
A saída grega poderá, esperamos, ser administrada. O Banco Central Europeu conteria os danos colaterais inundando o sistema bancário europeu com liquidez (contra garantias deficientes).
Assim, circunstâncias dramáticas mais uma vez forçariam a mão do BCE. Como maior instituição europeia, (o BCE) fica sistematicamente vulnerável a ser tomado como refém, obrigado a subscrever mais um socorro capaz de prolongar a vida do euro. Por essa razão, a recente promessa do presidente do BCE, Mario Draghi, de fazer "(tudo) o que for necessário" para salvar o euro não surpreendeu.
Na esteira da crise reemergiu um significativo viés nacionalista. Iniciativas de blindagem tornaram-se a opção automática dos supervisores nacionais e as condições monetárias voltaram a ser segmentadas segundo orientações nacionais.
Em 1999, pareceu que Jacques Rueff, um conselheiro de Charles de Gaulle, tinha razão: "L"Europe se fera par la monnaie". Onze países europeus decidiram abrir mão de suas moedas nacionais (ou, mais tecnicamente, de suas taxas de câmbio nominais).
Esses países entenderam "moeda única", como um corolário quase físico de "mercado único". Políticas monetárias nacionais independentes em um mercado comum eram corretamente consideradas inviáveis, dada a preferência europeia por taxas de câmbio estáveis e mercados financeiros abertos. Isso exigia uma moeda única - e, portanto, responsabilidade compartilhada pela política monetária.
Hoje, no entanto, talvez seja necessário reformular o axioma de Rueff: "Et l"Europe se défait par les marchés financiers", isto é, a não ser que a Europa idealize um projeto institucional viável.
Dado as atuais agruras do euro, é instrutivo recordar os argumentos enfatizados na reta final para a união monetária. Como disseram Robert Mundell, agraciado com o Nobel de Economia, e outros analistas na década de 1960, abrir mão das taxas de câmbio nominais enfatiza três mecanismos alternativos para absorver o ajuste regional: transferências fiscais inter-regionais, migração entre países na união e, mais importante, mercados de trabalho capazes de se adaptar a choques.
Infelizmente, esses mecanismos foram anátema na ocasião. Transmitir a mensagem de que nada teria de mudar pareceu ser bem mais atraente. Assim, não se deu ouvidos aos argumentos de Mundell quando da concepção do planejamento institucional do euro. Na verdade, o Pacto de Estabilidade e Crescimento, assim como a cláusula europeia impeditiva de prestação de socorros, ignoraram a teoria econômica pertinente (qualquer teoria econômica, dizem alguns).
Somente após o fato, desde o outono de 2009, tornou-se majoritária a percepção da insustentabilidade dos déficits em conta corrente no âmbito da união, acumulados durante mais de uma década. Agora, com a união monetária, o ajuste precisa ser efetivado modificando os preços domésticos em relação aos bens comerciáveis - ou seja, promovendo uma depreciação da taxa de câmbio real.
Mas a crise em curso também evidencia uma segunda falha de projeto, não citada no argumento de Mundell: os problemas decorrentes de mercados financeiros integrados (inclusive os obstáculos à credibilidade da cláusula de proibição de prestação de socorro). Em circunstâncias normais, os fluxos desimpedidos de capital entre países proporcionam todos as vantagens propagandeadas em termos de melhor alocação de recursos e maior produtividade. Na esteira da crise, porém, dado o destino compartilhado dos governos nacionais e dos bancos, reemergiu um significativo viés nacionalista. Iniciativas de blindagem tornaram-se a opção automática dos supervisores nacionais e as condições monetárias voltaram a ser segmentadas segundo orientações nacionais.
Isso se traduz em uma disparidade significativa dos custos de acesso a fundos por instituições financeiras. A consequência imediata é uma divergência substancial no custo de capital para as empresas, e muitas empresas de pequeno e médio portes chegam a perder inteiramente seu acesso a crédito. Como resultado, os investimentos de capital - já frágeis em vista da fraca demanda - caíram, deflagrando um círculo vicioso de contração do PIB.
O problema é que não apenas essa heterogeneidade de condições do acesso a fundos torna difícil conduzir uma política monetária comum. Mais importante, tendo em vista que algumas regiões agora enfrentam spreads de juros que são o equivalente funcional de ter suas próprias moedas (sem ter um banco central), alguns membros da zona do euro podem questionar por que não formalizar o que é efetivamente uma realidade.
Nada disso é inevitável. O euro não foi criado por razões puramente econômicas. Se for considerado um projeto meritório, e for visto como benéfico para todos os participantes, a zona do euro poderia ser viabilizada. Para isso, certas condições mínimas precisam ser respeitadas. Além de mercados de trabalho flexíveis, uma zona do euro viável pressupõe um mecanismo (mínimo) de seguro fiscal. E isso exige não só regulamentação financeira comum, como também supervisão das instituições financeiras no âmbito de toda a zona do euro - inclusive seguro comum para os depósitos e um esquema compartilhado de solução para problemas financeiros estruturais de bancos.
Isso é muito difícil. E levará tempo para ser implementado. Mas a alternativa imediata de curto prazo - deixar a Grécia sair - implicaria um preço considerável. Os países periféricos seriam obrigados a pagar um prêmio significativo para compensar os investidores por assumirem uma redenominação (calote parcial) do risco. E, com isso, a zona do euro ficaria tão vulnerável quanto revelou-se, historicamente, qualquer sistema de câmbio fixo. (Tradução de Sergio Blum).
Hans-Helmut Kotz é pesquisador sênior no Centro de Estudos Financeiros da Universidade Goethe, em Frankfurt, e professor residente no Centro de Estudos Europeus da Universidade de Harvard, foi membro da diretoria do Deutsche Bundesbank de 2002 a 2010, incumbido de estabilidade financeira, mercados e estatísticas. Copyright: Project Syndicate, 2012.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Radiografia dos salários do funcionalismo público

Comentários do blogueiro: Ressalvo as questões relativas aos dados utilizados. Vale sempre pesquisar para ver se os dados correspondem e quais outros podem compor um quadro comparativo, uma vez que uma coleta maior pode demonstrar um quadro diferente do pintado pelo colunista. A supressão de dados importantes pode levar a um viés no entendimento, independente da correção dos dados expostos.




Autor(es): Carlos A. B. Góes
Valor Econômico - 07/08/2012
No último mês, notícias sobre mobilizações de greves nacionais ocuparam lugar de destaque na imprensa. Os professores e técnicos das universidades federais interromperam seus trabalhos. O mesmo ocorreu com os servidores do ensino técnico e tecnológico. Até mesmo os funcionários do Itamaraty - assistentes e oficiais de Chancelaria e alguns diplomatas - que tradicionalmente não entram em greve cruzaram os braços.
O aumento no número de greves de servidores públicos é um fenômeno generalizado no país. Segundo dados do Dieese, entre 2007 e 2011 as greves no setor público aumentaram 138%. Seria de se esperar que essa diferença fosse explicada por uma estagnação nos salários do funcionalismo público num passado recente. Entretanto, uma análise desses números nos mostra que o salário real dos funcionários públicos - isto é, já corrigido pela inflação - aumentou 28,2% desde 2003, com uma aceleração a partir de 2005.
Remuneração dos funcionários públicos aumentou 28,2% desde 2003, e acelerou mais a partir de 2005.
Contra-intuitivamente, períodos de aumentos significativos no salário real foram seguidos de um crescimento no número de greves. Ao invés de uma curva de satisfação e acomodação com os ganhos reais, a forte correlação entre o número de greves que se seguem a períodos de aumento no salário real parece apontar para uma curva de aprendizado: como se os sindicatos percebessem que sua estratégia está funcionando e intensificassem suas ações em busca de ganhos ainda maiores.
Esse fenômeno vem criando uma distorção entre os níveis de ganho salarial entre os setores público e privado da economia. No setor privado, os aumentos no salário real estão limitados pelos ganhos de produtividade (em economês, limitados pelo "produto marginal do trabalho") e pelo poder de barganha de firmas e sindicatos na negociação salarial. No setor público a medida de produtividade não é objetiva e a relação entre o empregador - o governo - e os sindicatos tem idiossincrasias políticas mais complexas. Em contraste com os 28,2% de ganhos reais no setor público citados acima, desde 2003, os salários reais no setor privado cresceram 6,9%. Isso significa dizer que o crescimento relativo dos rendimentos reais do setor público foi quatro vezes maior que o do setor privado.
Tal situação se torna um problema quando se considera que os salários do setor público, ao começo da década, já eram maiores que os do setor privado. Como a maior parte da população é remunerada no setor privado, isso significa que o funcionalismo público tem tornado-se cada vez mais parte da elite econômica. Por exemplo, o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) reivindica em suas negociações de greve um salário mensal de R$ 22.633,92 para professores titulares das universidades federais. Se os salários reinvindicados se tornarem realidade, isso significará que esses professores terão uma renda maior do que a de 99,5% da população brasileira. Com toda a deferência necessária à nobre arte do magistério, a transferência de renda para aqueles que constituem 0,5% mais abastado do país parece difícil de ser justificada como objeto de qualquer política pública.
O hiato entre a renda média do funcionalismo público e a renda média dos demais trabalhadores brasileiros tem aumentado fortemente na última década. Tomando como base dados da Pesquisa Mensal de Empregos do IBGE, é possível verificar que, durante o ano de 2003, um funcionário público ganhou mensalmente, em média, R$ 602 a mais que um trabalhador do setor privado. Já em 2011, essa diferença aumentou para R$ 1164. Além disso, estudo recente da PUC-Rio aponta que, quando considerados salários e rendimentos com aposentadorias, a vantagem para o funcionalismo público torna-se prevalente para todos os níveis de escolaridade - de trabalhadores sem educação formal àqueles com pós-graduação. Como os funcionários públicos ganham mais que a média, o aumento dessa diferença constitui objetivamente uma política de concentração de renda.
A atual tendência funciona como forte atrativo para que mais pessoas saiam do setor privado e busquem os maiores salários e benefícios do setor público. Segundo a Associação Nacional de Proteção e Apoio aos Concursos (Anpac), associação formada por cursos preparatórios para concursos, cerca de 11 milhões de pessoas se candidataram a vagas no funcionalismo público em 2011. E, julgando pela atual conjuntura, não existe perspectiva de mudança nesse cenário. À medida que os trabalhadores mais capacitados deixam o setor privado, menores tenderão a ser, no longo prazo, as perspectivas de crescimento da produtividade da economia.
Não há dúvidas de que o país precisa de funcionários públicos capacitados e justamente remunerados que ajudem a minimizar as ineficiências da gestão governamental e combater a corrupção. Contudo, é difícil argumentar em favor de salários ainda maiores para um funcionalismo público que ganha, na média, quase 75% mais do que o resto da sociedade que o sustenta. Uma radiografia dos salários no setor público revela, portanto, uma política que concentra renda, drena talentos dos setores produtivos e, por questões políticas, garante aumentos reais maiores do que os ganhos médios de produtividade do país - minando as bases de seu crescimento no longo prazo.
Carlos A. B. Góes é pesquisador de economia latino-americana vinculado à Universidade John Hopkins.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Produtividade depende do empenho do capital privado

Valor Econômico - 06/08/2012
Pancadas nos bancos podem reduzir, aqui e ali, os juros oferecidos no crédito imobiliário ou no cheque especial, assim como esmurrar a mesa nas reuniões com as operadoras e proibi-las de vender chips por 11 dias pode aumentar circunstancialmente as promessas de investimentos das teles. Nenhuma mudança relevante da produtividade na economia brasileira, porém, ocorrerá sem o engajamento do capital privado. Com a promessa de anunciar em breve um pacote de novas concessões na área de infraestrutura, o governo do PT parece finalmente ter entendido isso, reconhecendo a incapacidade do Estado em atender ao crescimento da movimentação nos portos, aeroportos, rodovias e ferrovias.

O chamado "PAC das Concessões" deverá oferecer à iniciativa privada 5,7 mil quilômetros de rodovias e cerca de 5 mil quilômetros de ferrovias, além de abrir a possibilidade de renovação dos contratos de 98 terminais portuários arrendados antes da Lei 8.630/93 (a Lei dos Portos). Se a presidente Dilma Rousseff desprezar visões antiquadas e escutar o desejo dos passageiros, incluirá no pacote a privatização de mais aeroportos, como Galeão (RJ) e Confins (MG).

Os sinais de que o Estado não consegue acompanhar as necessidades de modernização da infraestrutura são, no Brasil, mais do que evidentes. A menos de dois anos da Copa do Mundo de 2014, o ritmo de obras da Infraero continua em marcha lenta e a estatal executou só 18% do orçamento programado para 2012. O avanço da ferrovia Norte-Sul, em construção desde a década de 1980, esbarra em uma cascata de licitações mal feitas e contratos com indícios de superfaturamento. E a malha de estradas federais padece com a paralisia do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), cujos investimentos caíram 42% no primeiro semestre, quando comparados ao mesmo período do ano passado. Infelizmente, esses não são exemplos apenas pontuais. Além da insuficiência de recursos, os obstáculos são bastante conhecidos: começam pela lentidão no processo de tomada de decisões, passam pela má qualidade dos projetos e terminam no rigor - às vezes até excessivo - dos órgãos de fiscalização.

O ônus de tudo isso para a economia pode não aparecer tão nitidamente como no racionamento de energia elétrica que vivemos em 2001, mas impede o Brasil de melhorar sua produtividade. No ranking de desempenho logístico do Banco Mundial, o país encontra-se na 45ª posição. Cargas demoram mais tempo para chegar aos portos e produtores pagam mais caro pelo frete. É estarrecedor o caso do Ferroanel de São Paulo, planejado há tempos e jamais tirado do papel, que deve estar presente no cardápio de projetos do PAC das Concessões: hoje, composições com centenas de vagões rumo ao porto de Santos ficam parados várias horas na entrada da região metropolitana, à espera de "janelas" de horário nos trilhos usados prioritariamente para o transporte de passageiros. Tudo porque o governo federal e o governo de São Paulo nunca conseguiram desengavetar um contorno ferroviário com 66 km de extensão.

Por meio de um diagnóstico precoce e correto da amplitude da crise internacional, o Banco Central baixou a taxa básica de juros para o menor nível da história, enquanto o câmbio move-se gradualmente para um patamar um pouco menos nocivo, embora ainda doloroso, para a indústria nacional. Agora, com a disposição de retomar reformas estruturais e buscar maior participação do setor privado na infraestrutura, a presidente Dilma Rousseff tem a oportunidade de jogar uma bomba de oxigênio na estrangulada economia brasileira.

É pouco provável que os resultados do novo pacote surjam ainda em 2013. Entre o anúncio dos projetos e a assinatura dos contratos de concessão, há um longo caminho a percorrer: a elaboração de estudos de demanda, a realização de audiências públicas, a formulação de editais e aprovação de todos os trâmites pelo TCU. Sem nenhum acidente de percurso, são ritos que tomam até um ano. No entanto, mesmo que a aplicação de recursos privados em seus empreendimentos só ocorra efetivamente a partir de 2014, a dimensão do PAC das Concessões pode dar ao empresariado o ânimo que ele foi incapaz de recuperar com os tímidos pacotes lançados até agora.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O "pas de deux" da economia

Comentários do blogueiro: Já havia falado sobre a questão dos aumentos sem a contraparte dos servidores (aumento na produtividade), o que pode levar o Brasil até a sofrer com alguns dos problemas gregos. Na verdade, há de se perceber que o mote deve ser, em 1º lugar, a busca pela redução dos ganhos que estão no topo, aumento da massa real de salários partindo do mínimo vigente em 2º lugar e finamente a busca cada vez maior do controle dos preços. A redução dos salários mais altos ajudaria em alguma proporção no controle dos preços, que por sua vez reforçaria o aumento real da renda. Em seguida, a economia proveniente seja da redução do aumento, da redução que reza a lei ou do congelamento do salários mais altos poderia em parte ser utilizada para novos ganhos reais do salário mínimo, começando novamente todo ciclo de autoreforço, gerando um círculo virtuoso na economia de estabilidade, crescimento e redução das desigualdades de renda e riqueza.
Não há nada de utópico nisso que foi exposto, já que alguns países europeus fizeram nos últimos 15 anos partes do que foi citado acima , como a Alemanha por exemplo, que além de alguns dos itens mencionados ainda incrementou em muito a sua produtividade.




Autor(es): Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo - 01/08/2012
O setor automobilístico está cumprindo sua parte no acordo com o governo, disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, depois de uma reunião com o executivo Luiz Moan, diretor da General Motors e presidente interino da Anfavea, a associação nacional das montadoras de veículos. Se o governo está satisfeito, fica difícil entender a exibição de mau humor da presidente Dilma Rousseff, em Londres, quando circularam notícias de possíveis demissões de 1.500 empregados da GM em São José dos Campos. O ministro e o executivo apareceram juntos para a entrevista, mostraram-se igualmente otimistas e reafirmaram a disposição de cooperar, repetindo um velho e bem conhecido pas de deux: o governo concede incentivos e proteção ao setor, em troca de promessas de investimentos e de preservação de empregos; em contrapartida, os empresários agem como querem, garantem seus lucros e os custos são repassados para o resto da economia. Pactos desse tipo, com ou sem compromissos de manutenção de preços, ocorreram várias vezes nas últimas décadas, quase sempre acompanhados de uma alegre aliança entre empresas e sindicatos. Os sindicalistas de São José dos Campos têm criado mais problemas que os de outras regiões, mas nem por isso se deve esquecer o velho costume: nos setores industriais mais poderosos, empregados e empregadores acabam jogando no mesmo time, com as bênçãos de um governo sempre generoso com os grandes grupos.
O desempenho da indústria melhorou nos últimos dois meses, disse o ministro, e o mês de julho deve ter sido "o melhor da história". O programa de estímulo, acrescentou, está sendo muito bem-sucedido. Mantega mencionou também, com aparente otimismo, o novo regime automotivo, com entrada em vigor prevista para janeiro de 2013.
Políticas baseadas em favores fiscais para setores selecionados e muito protecionismo continuam sendo a regra. O governo classifica esse jogo como política industrial. De vez em quando as autoridades, como se cumprissem um ritual, mencionam a busca da competitividade como um de seus objetivos. Mas a prática mostra algo muito diferente. O enfoque setorial continua dominante e a lista dos beneficiados simplesmente se amplia de acordo com o poder de pressão dos vários grupos. As chamadas políticas horizontais - dirigidas para o conjunto da economia - continuam quase totalmente ignoradas. A prometida redução dos custos da eletricidade, a partir do corte de impostos e contribuições federais, pode ser uma exceção.
A presidente Dilma Rousseff tem prometido mais iniciativas desse tipo, mas o governo está despreparado para cumprir essas promessas. Ações para aumentar a eficiência geral da economia poderiam incluir, por exemplo, investimentos muito mais amplos e mais planejados na infraestrutura de transportes. Mas a administração federal continua sem condições de realizar essa tarefa. A mesma limitação é evidente na maior parte do governo central, como comprova, repetidamente, a baixa execução dos investimentos. Apenas R$ 18,6 bilhões foram aplicados no Programa de Aceleração do Crescimento, no primeiro semestre, cerca de 40% do total previsto para o ano, e a maior parte desse dinheiro saiu de "restos a pagar".
Apesar do baixo investimento, o gasto federal continua a crescer, como comprovam os números do primeiro semestre recém-divulgados pelo Tesouro Nacional. Crescerão ainda mais no próximo ano, e a folha de salários e benefícios será mais uma vez inflada por uma nova rodada de aumentos, sem a contrapartida, é claro, de mais eficiência e mais qualidade no serviço público. A presidente Dilma Rousseff prometeu mais de uma vez, pelo menos até o ano passado, cuidar da qualidade da gestão e do gasto do governo. Nada fez para cumprir também essa promessa.
Parcimônia no gasto e melhor uso do dinheiro público são essenciais, no entanto, para políticas de aumento de produtividade geral da economia. São condições fundamentais, também, para a indispensável e sempre adiada reestruturação do sistema tributário. Mas a presidente já renunciou explicitamente a esse objetivo, limitando-se a um compromisso, muito mais modesto, de mudanças parciais nos impostos e contribuições. Mudanças parciais, no entanto, acabam envolvendo benefícios para alguns setores e maiores encargos para outros, como tem ocorrido normalmente.
Tudo indica, portanto, a manutenção do velho e bem conhecido esquema: benefícios fiscais continuarão sendo distribuídos a alguns setores, em geral protegidos também por barreiras comerciais, a conta será paga por outros e a produtividade geral da economia continuará baixa. É esta, por enquanto, a perspectiva de médio prazo para o B do Brics. O pas de deux do governo com o setor automobilístico é mais uma boa indicação dessa tendência